Finalmente de volta à selva de pedra, eu tinha combinado de sair com uma amiga querida. Eram mais ou menos 10h45 da manhã quando recebo uma mensagem dela, algo como: “Tô com saudades, vamos marcar?”. Vi o recado e deixei para responder depois que voltasse da academia e limpasse a casa. Em meio ao cheiro forte do alvejante, o telefone tocou. Era ela.
Será que tinha acontecido alguma coisa importante?
Dias antes, eu tinha lido uma notícia que me deixou espantado por mais de um dia. O aplicativo mais popular da China entre os jovens era um sinalizador “estou vivo”. A cada 48 horas, o usuário aperta um botão que avisa a família que ele está bem; se não apertar, as autoridades são acionadas.
Por mais diferentes que sejam em geografia e cultura, minha amiga e aqueles chineses guardam um sentimento em comum.
O ato dela me ligar e o do chinês apertar o botão sinalizam a mesma coisa: vitalidade. É absurdo pensar que, na época em que mais se tem acesso à comunicação, é quando menos se fala de verdade. O sentimento que permeia a cabeça da minha amiga e do usuário desse aplicativo é o mesmo. A falta.
Nós, seres humanos, fomos feitos para viver em sociedade e em comunidades. A nossa herança ancestral grita quando passamos dias e dias isolados do contato humano real, restringindo o toque a likes e envios de Reels no Instagram. Mas existe risco nisso ou esse cronista que vos fala está só viajando na vida alheia?
Na minha opinião, sim, tem risco — e não é pouco.
Veja o caso dessa minha amiga. Há pouco mais de seis meses, terminou um relacionamento que durou algo em torno de oito anos. Toda aquela cesta de expectativas e fantasias futuras foi pela janela. Morando sozinha há três anos, a solidão do apartamento começou a permear o dia a dia dela. Diferente de Kafka, que via a solidão como uma solitude recheada de livros, a minha colega não encontrou o mesmo conforto. Claro que ela iria buscar uma solução. Pelo menos um remendo, conseguiu.
Conversando comigo, fez questão de relatar os encontros que marcou na solteirice. E o número de matches no Tinder: algo próximo de 300.
— Tá vendo esse aqui? Advogado, sócio de um escritório aqui de SP. Deve ter grana, né?
— Hum, imagino que sim. Melhor ir com calma quanto a isso.
— E esse aqui? Quarentão, diretor de uma associação e dono de uma firma de mudas de café. Tem grana também.
— Legal ele?
— Beija bem, sim.
— Mas o que você tá procurando?
Até hoje aguardo uma resposta.
Na prática, essa minha amiga ainda está presa ao relacionamento passado. A pressa em arrumar outro companheiro faz com que ela se coloque vulnerável à manipulação — consciente ou inconsciente — de qualquer um desses rapazes. Foi esse o problema que tentei, gentilmente, alertar.
Mas ainda existe uma questão mais grave.
Ao relatar a busca por um novo companheiro, ela não estava pensando em alguém para semear e crescer junto, mas em alguém para tapar o buraco que existe dentro dela.
A vida oferece mil oportunidades todos os dias para quem tem o luxo de acordar. Mas a dádiva de estar bem consigo mesmo é para poucos. E, quando isso falta, qualquer companhia serve: o match aleatório, a notificação, o botão “estou vivo”.
No fundo, o melhor passeio é aquele em que você leva a si mesmo.
Por mais longe que você vá, ainda levará você.
Despedi-me dela e segui caminhando pela Avenida Paulista na gelada noite de SP. Observando o cair dos chuviscos nauseados pelos faróis dos carros, tive certeza de que acertei em cheio quando decidi me levar para essa caminhada, ao invés de esperar que alguém viesse me buscar.