Tenho a vaga noção de que essa talvez seja a terceira crônica com tom de mudança que trago para cá. Perdoe-me. Não quero ser chato. Só que mudança tem esse defeito: ela insiste. E eu, que queria trazer reflexão, fui encontrá-la onde não queria, no meio da bagunça.
Mudar-se é uma merda. A minha sensação é que qualquer prestador de serviço olha para mim como um cofre de moedas. Não pelo valor, mas pela facilidade de abrir. Olham para a minha paciência como um campo minado em que não há necessidade de cuidado ao pisar. Eles pisam. E pronto. Explodem a bomba.
Ah! Se tivessem medido a caixa da minha máquina de lavar corretamente, eu seria mais feliz. Se tivessem pensado, por um segundo, que micro-ondas precisa de tomada, eu seria mais feliz. Se ao menos tivessem testado o ar-condicionado logo depois de instalarem, eu seria feliz, feliz, feliz dentro deste pequeno apartamento. Mas não. O que tenho é um conjunto de profissionais inertes trabalhando com a tranquilidade de quem não vai dormir aqui.
Com as veias das minhas têmporas já enxarcadas e com pouca capacidade de existir em paz, recebo mais uma “piada”. Fui cobrado por uma mensalidade de um curso que nunca fiz, por uma faculdade que nunca conheci. Não foi metáfora. Foi a manhã de segunda. Esta mesma em que vos escrevo. Desta vez eu achei que surtaria e aos mortos passaria. Não era possível que tantos problemas acontecessem comigo, todos de uma vez. Como sou importante, não é?
Eu não ia segurar. Preciso de um café expresso para me acalmar.
Vou ao shopping perto de casa. Caminho com uma raiva incapaz de se esconder na minha face, com uma expressão capaz de anunciar o pior dia da vida de uma pessoa. E enquanto atravesso a entrada lateral, esbravejo por dentro. Os erros da obra, a cobrança indevida, o quanto fui feito de trouxa, o quanto fui tolo. Eu estava verdadeiramente puto. Muito puto.
Indo em direção à cafeteria, vejo alguém que me interrompe o pensamento.
Sentada num banco de madeira da praça de alimentação, junto da família, uma jovem, muito mais jovem do que eu, atravessava uma guerra que não escolheu. O tipo de doença que rouba o corpo e exige silêncio em troca. E eu ali com meus móveis, meu ar-condicionado, minha tomada. Reclamando.
Eu parei. E a minha raiva ficou sem lugar.
No mesmo instante em que eu caminhava possesso, pensei no quão cruel a vida pode ser. Enquanto eu brigava comigo por questões mundanas, alguém lutava por algo que pode levá-la inteira. É muito para processar. Não tem como negar. Quando a saúde vai embora, o resto perde sentido.
Eu senti injustiça. Uma injustiça do universo para com quem só queria viver o dia. E senti uma impotência enorme, porque não há gesto que resolva isso. Não fixei o olhar. Não quis somar constrangimento a quem já carrega tanto. Tomei o café, mas ele não teve função. Eu já estava acordado.
De repente, o meu ar-condicionado e os meus móveis não significam mais nada. E eu achava que sabia o que era sofrimento.