A indecisão produz alguns efeitos sobre o homem para além da perda de tempo. Ela provoca a convivência forçosa com sentimentos do passado que já deveriam ter ficado para trás. Convidado por mim mesmo a viver com esse sentimento na pós-graduação, mudei de curso. A amenidade comum no começo da aula de cada novo ciclo é um clichê que ninguém, a não ser o narcísico, aguenta: nome, profissão e endereço de trabalho. Um saco.
Como não tomei uma decisão finalística, foi culpa minha ter que conviver com isso novamente. Sentado em uma cadeira quase infantil para as minhas dimensões, sinto o frio da sala passando pela orelha e entrando pelo lado do moletom. O professor não seguiu uma ordem, mas uma sequência dada pela cabeça dele. Assim, eu nunca saberia qual seria a minha vez. Com a barriga doendo e aguardando pelo meu momento, ajeito a postura e começo a ouvir meus colegas. A cada um que ele passa, sinto que a minha vez está chegando e eu não sei o que vou dizer.
Ao meu lado, um engomado com a mochila de um escritório de advocacia. Do outro, um médico com o moletom dobrado na bolsa. Enquanto isso, eu estava trajado com um tênis de corrida e uma camiseta básica.
Eu estava demasiado preocupado. À toa. Todos ali pensavam nisso como uma peça de teatro, mas eu só tinha a verdade para mostrar.
O primeiro putão escolhido levanta a mão. Ajeita o cabelo, endireita a gravata e fala, dentro dos 15 segundos concedidos, a sua malemolência. Cargo? Head de precificação da multinacional XYZ. O segundo levanta-se em seguida e fala. Veio aqui buscando o quê? “Sou empresário multisserial e quero profissionalizar a gestão das minhas empresas.” Ao meu redor, vejo uma série de olhares voltados para ele, implorando por aplausos. O que porra eu iria falar?
Sem cerimônia, ele olha para mim e proclama: sua vez! E eu não converso muito com a sorte. Apenas digo: economista e desempregado.
A sensação que obtive foi nefasta. Todos ali estavam validando sua existência com outrem. Ali, levaram a cabo a ordem proposta por Jean-Paul Sartre quando ele afirma que a existência precede a essência. Estavam todos acreditando no princípio de que você apenas existe sob a ótica da validação do outro. Isso nada mais é do que acreditar que só serei bem-sucedido quando o outro disser. Que sou bonito quando o outro disser. Que sou rico quando o outro reconhecer. O outro, o outro, o outro. Que inferno!
Ninguém ali teve coragem. Coragem não de falar em público, essa você aprende. Coragem de enfrentar o absurdo. De espalmar para o mundo a sua angústia de ter que escolher entre passar uma imagem positiva e neutra ou chamar atenção falando a verdade. Não consegui ouvir um simples “estou aqui porque a minha empresa paga e eu não quero perder a oportunidade”, ou então algo ainda mais óbvio: “estou aqui porque quero colocar um mestrado no meu currículo.” Ninguém. Absolutamente ninguém.
Estou nauseado por saber que esse é o padrão. Esse é o comportamento esperado. Fico ainda mais enjoado ao refletir na má-fé que isso representa. Destinados a escolher como somos nós, humanos, sempre que jogamos nossas decisões a entes metafísicos como o bem-estar ou a boa convivência, colocamos nosso destino e, consequentemente, o destino de nossos pares nas mãos disso tudo. Assumam de uma vez suas vidas e pronto!
Esse é o nascimento da tragédia verdadeiramente. Estamos todos preocupados com o outro e terceirizando nossas decisões para os outros como verdadeiros animais que precisam que um leão nos diga para onde ir. Assumam de uma só vez!
Passada a dor de barriga de ter que falar para tantos estranhos, fico sentado na gélida sala de aula, em minha minúscula cadeira. Escondendo atrás do moletom mais do que o frio: a angústia.