Demasiado Humano

Andando de mãos dadas em uma rua paralela à Avenida Paulista, descubro em mim um sentimento antigo. Daqueles que você não sabe de onde vêm, nem quando se alojaram. Mas sabe que estão lá há muito tempo. Preso em cada palavra; amarrado em cada oração, eu me pego criando um diálogo perfeito. Incapaz de notar tamanho gasto de energia, calculo cada passo da conversa como um enxadrista. Não posso arriscar, por um minuto sequer, a possibilidade de o outro me abandonar por um erro meu. Uma frase minha… e pronto: estaria sozinho de novo.

Eu não estava, em momento algum, me relacionando com alguém, mas buscando a mim mesmo em outrem. O outro assume um papel central na vida que não se tem. Não tem jeito: o orvalho cai mais abundante quando a noite é mais silenciosa. Era ali, na madrugada, que eu via que já havia mandado duas ou três mensagens sem resposta. Mas seguia, buscando no desejo do outro uma necessidade etérea de evitar o isolamento.

Só ele me mostrou que eu estava usando o outro como o frio usa o casaco. Mas, agora, eu usava o outro como escudo de mim mesmo.

Se muito, funcionaria por trinta segundos. Ontem te falei sobre como o stalkeamento poderia virar uma droga para quem stalkeia. Hoje, quero te dizer que presença e afeto podem ser ainda piores. Você implora, insiste, joga a responsabilidade pelo seu bem-estar no outro. Pede a ele que não te esqueça e que não te ignore. Pede ainda o impossível: que seja recíproco. Ah! Tudo isso para não ter que carregar o fardo de levar a si próprio. Para não levar, nas costas, o peso do seu destino. Ah! Quanta covardia. Quanta falta de autocrítica. É dessa vulnerabilidade que, por muitas vezes, nos valemos. No desespero de achar alguém, aceitamos o que vier; e é na frieza da escolha e na cegueira da ansiedade que mora o mal. O oportunismo e o egoísmo são sentimentos tão inebriantes que fico com a vista ocultada só de pensar.

Implorava pela atenção de amigos, pelo mísero afeto de algumas mulheres e pela necessidade real de não dormir sozinho mais uma noite. Saía, pagava e implorava que pudéssemos marcar novamente. Meu sonho ideal seria uma agenda cheia de compromissos sociais para os quais eu nunca pudesse recusar. Qualquer coisa seria melhor. Qualquer coisa! Quão covarde eu fui… buscando a mim mesmo em outrem. Saía e, quando chegava em casa, não aguentava de tanta dor. Uma enxaqueca encardia minhas têmporas e me deixava estressado por duas semanas corridas. Não conseguia sequer comer. Eu usei o outro como espelho e, quando me vi, não aguentei a dor.

Por mais habilidoso que eu fosse em buscar uma saída, uma solução, um remédio, eles estavam sempre ali. Meus piores monstros, eu os levava no bolso para qualquer lugar que fosse. Ainda tenho pesadelos com eles. Como vou te mostrar, consegui vencer mais essa luta, mas tenho plena ciência de que ela nunca acaba. Basta uma pitada do tempero da redenção, uma só, para que tudo volte aonde estava e nada mais me possa ser feito que não, recomeçar.

Não tem jeito: a gente passa horas buscando na internet um antídoto melhor, mas ele não existe. Você precisa enfrentar. Quando a solidão bater e seus monstros crescerem sobre você, saia para andar. Saia para viver. Deixe que o outro tenha um papel de mero coadjuvante em sua vida. O outro e o que ele pensa não devem ser mais do que um papel embrulhado e jogado no lixo — melhor seria incinerado.

A sexta-feira chegava e… não tinha nada para fazer. Não tinha compromissos nem ninguém em igual situação para convidar. Olhava para os lados e só os livros encontrava. Mas olho para o outro e vejo uma cozinha para fazer meu alimento e, olhando para frente, vejo minhas pernas dispostas a me levar para onde eu bem entendesse. A minha cura só poderia estar em um lugar: dentro de mim. Levei-me ao passeio da vida; conheci museus, restaurantes, cafeterias, livrarias e, de bônus, a mim mesmo. Tive todas essas oportunidades porque um dia deitei e vi que o problema não era que o outro não me respondia, mas que eu precisava demais daquela resposta.

Inebriado pela culpa, penso que posso ter usado o outro por todo esse tempo. O outro… quem ele seria? Uma entidade metafísica que você pode até um dia nomear, mas que seja sempre com o último pronome.

Eu nunca quis usar ninguém, mas hoje vejo que usei. Ao menos, foi por pouco tempo.

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