Os espelhos da paulista

Degrau após degrau, cheguei enfim ao térreo do edifício Sesc da avenida Paulista. A espera por qualquer um dos cinco elevadores parecia infinita, e minha barriga precisava de um pouco de exercício. No saguão, olho o GPS e descubro que, virando à direita e caminhando cento e cinquenta metros, chego a uma fonte de água no deserto: a Martins Fontes. Mas, no caminho, uma imagem me incomodou tanto que acabou vindo parar aqui.

Caminhar parece algo simples para quase todo mundo. Você coloca um pé depois do outro e, depois de algumas passadas, o destino se aproxima. Acontece que nunca foi assim para mim. Eu caminho, e tudo à minha volta é interessante o suficiente para roubar alguns segundos da minha atenção. Até que, numa dessas paisagens urbanas, vejo minha imagem refletida num grande paredão de vidro. E lá estava eu, a minha fisionomia diluída em tantas outras que passavam pela rua.

Mas e daí?

Eu estava ali, caminhando, ouvindo música, e, de repente, uma imagem que eu não esperava apareceu sem pedir licença. Eu não estava me procurando, muito menos pensando na minha aparência. Quando aquele reflexo surge, tudo o que antes merecia alguns segundos de atenção some e só isso importa. É nesse microcosmo que mora uma questão central da existência humana. O que nós pensamos de nós mesmos?

Pego no flagrante por mim mesmo, sinto um misto de vergonha e rigidez facial. Sem querer — mas, no fundo, querendo — ajeito a camisa, endireito a postura, passo a mão no cabelo para verificar se o gel ainda está lá. Puxo a barriga para dentro, olho para a roupa, e um sentimento antigo me atinge em cheio.

Qual?

O de não me reconhecer. Desde as minhas primeiras memórias, lembro de parar em frente ao espelho, ficar alguns minutos ali e não sentir nada. Um vazio enorme, cheio de significados que eu ainda não sei nomear, transbordava — e às vezes ainda transborda — na minha mente. No fundo, a minha cabeça só queria escapar daquele lugar a qualquer custo.

Rapidamente viro o rosto e sigo a caminhada, que já não é mais a mesma. Pensando sobre isso e em como ia te contar, percebo que, no fundo, eu não queria ver. Não queria estar ali. Eu paro, olho meu rosto e, de bate-pronto, encontro alguns defeitos. Viro de lado, espio com o canto do olho o perfil e encontro ainda mais. Quando isso virou verdade?

Desde quando não gostar da própria imagem passou a ser quase normal?

Abro as redes sociais e encontro um punhado de histórias de superação, ganho de autoestima, glow up, nos termos modernos. Mas será que isso é ganhar conforto emocional ou só ganhar validação externa? Sentir-se bem é gostar do que vê ou receber a aceitação do que os outros veem? No fundo, a gente trabalha o dia inteiro, junta umas migalhas, compra umas coisas para mostrar ao outro e ainda coloca uma legenda marcante: “eu mereço”.

Quantas pessoas não passam pela Paulista todos os dias e sentem o mesmo? Passam, são capturadas num espelho por elas mesmas e seguem andando com aquele desconforto preso na mente. Com aquela angústia entalada.

Talvez, no fundo, muita gente passe ali e sinta o mesmo misto de sensações que eu tive: existir tentando não chamar atenção demais. Existindo com discrição.

Eu me vi. Senti. E segui andando. É isso que eu faço quando a existência pesa: continuo andando, mesmo que o espelho da rua insista em me lembrar que eu ainda estou aqui.

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