Todo mundo, no fim, acaba concordando que a pior parte de viajar é ter que voltar. Tentar encaixar tudo na mala da ida, enfrentar fila em aeroporto, disputar uma mísera cadeira a bordo. Hoje foi a minha vez: me despedi da família e fui direto para o aeroporto com uma ansiedade que me comia os nervos de vontade de chegar logo.
Como um bom ansioso, sei do meu problema e procuro caminhos para diminuir a ansiedade naturalmente. A primeira ideia? Cortar o tempo de telas. Só assim consegui enxergar o tamanho do buraco em que a gente se enfiou como sociedade.
Chegando ao aeroporto e passados todos os rituais típicos de um viciado em café como eu, enfiei a identidade e o cartão de embarque no bolso e fui para a fila do raio-X, já preparado para a concorrência no scanner. Mas eu ainda teria uma surpresa maior.
Uma ação que já fiz dezenas de vezes ao longo da vida – esperar a minha vez no raio-X – virou palco de uma cena quase apocalíptica. Como num episódio de Black Mirror, todos apenas rolavam a tela para baixo e deixavam o próximo Reels engolir mais alguns segundos de vida. Parece não ter fim. E, como sociedade, isso tem toda a pinta de um problema.
Não é a primeira vez que vejo as telas tirarem o ser humano do eixo. Já presenciei batidas de carro, trombadas na rua, assaltos e quedas, tudo por causa de uma cara enfiada numa rede social em busca da próxima microdose de dopamina. O desafio de hoje era simplesmente fazer a fila andar. Como o único sem telefone na mão, eu vivia avisando o passageiro à minha frente que o espaço entre ele e a pessoa seguinte já tinha aberto uns dois metros.
Que mal é esse?
Refletindo sobre o tema, já passei por várias fases. A priori, achei que fosse só uma nova etapa da forma como nos comunicamos, algo inevitável. Mas, ao mesmo tempo – e como um bom ansioso –, eu consigo ver o caminho de apodrecimento mental que isso vai pavimentando.
Cada vez menos queremos esperar. Esperar uma hora por um delivery parece uma eternidade, conhecer pessoas pessoalmente é um castigo e ir ao banco presencialmente virou penitência. O que aconteceu com aquela sociedade que se arrumava só para ir ao banco tomar café com o gerente? Em algum ponto, a gente perdeu o senso de contemplação.
Com tantos estímulos visuais e tanta gente brigando pela nossa atenção a cada rolada de tela, sobra pouco tempo para contemplar a vida. Observar o passar dos carros, o chegar dos aviões, as pessoas que vêm e vão: tudo isso saiu da rotina e entrou em extinção. Sem esse momento de contemplação, em que a mente realmente descansa, a gente não consegue pensar direito nas próprias questões. Em vez disso, entra num ciclo rápido de desejo e satisfação que não fecha nunca.
No fundo, a filosofia de Schopenhauer é mais atual do que nunca: a tal “ânsia de ter, tédio de possuir” ganhou um catalisador de bolso. Se antes o desejo de ficar rico era perseguido por uma vida inteira, hoje é um objetivo para antes dos 30.
Mas deixe – me ir. Tenho um voo para pegar e tenho que me livrar de todos esses zumbis a minha frente se ainda quiser chegar lá.