Conselheira Divina

Enfadonho. Prepotente e Arrogante. Fora tudo que consegui pensar quando ouvi da conselheira divina a solução dos meus problemas. Sabia a solução para os problemas de todo mundo. Menos para os dela mesmo… Realmente curioso. 

Fiquei ali tentando formular uma frase… A última coisa que eu queria parecer era carente. Era tarde demais. O orgulho já havia tropeçado e caído na piscina da frente. Eu precisava de ajuda. Aprendi que deveria escolher melhor a quem pedir… 

Na beira da piscina de um prédio mais ou menos, o sol torrando forte e um toque de crianças pulando de barriga na piscina deram vida ao começo da  nossa conversa. Foi mais ou menos assim:

  • Não consigo arrumar ninguém para ficar. Fico triste com isso. Será que eu sou tão feio assim? 
  • Claro que não arruma. Você quer chegue em você. Tá achando que é quem? – E você, quem pensa que é? Pensei, mas calei

Eu já estava cheio desse assunto. Precisava de ajuda. Pensei que alguém que tem uma xoxota debaixo das pernas tivesse a capacidade de fornecer conselhos melhores. Minha mãe não conta né? 

  • Filho, se acalma. Você vai arrumar alguém. É na fila do banco, na faculdade, no acaso. Há que se acalmar com isso.
  • Minha mãe. A senhora tem razão – desisti. Ela ainda acha que eu sou lindo!

Continuei um tanto estupefato com o assunto. Como a Ana podia achar que é assim tão simples? Continuei conversando com ela na piscina:

  • Pô Ana, não é assim não. Realmente não penso que as pessoas deviam chegar em mim
  • Hum
  • Por quê você acha isso? 
  • Não sei. Você tem esse ar arrogante. De estar acima do bem e do mal. De achar que é lindo, maravilhoso. O perfeito

Me abstive de qualquer resposta. Na quieta madrugada de Aracaju, o barulho da roda do carro na estrada, os postos acesos e música anos 90 tocando na rádio davam o tom da reflexão. 

Quando alguém fala assim com você, pode ter certeza: ela não está disposta a mudar de opinião para nada. A caixa da cabeça está selada como baú. Comecei com os clássicos pensamentos ansiosos de quem se culpa o bastante para saber que tudo isso ecoaria por um bom tempo

Será que eu passo esse ar arrogante?  Será que eu só sou feio pra burro mesmo?  Será que eu vou morrer sozinho? Já me desejaram isso… 

Tudo isso ecoava na minha mente como quem precisa de um cigarro. Depois outro. E quem sabe os 18 que restam na cartela. Contudo, depois de refletir muito, decidi que deveria retomar o assunto com ela. Boa ideia? Não sei, pra mim foi. 

  • Salve Ana… Pensei demais sobre o que falamos aquele dia na piscina no prédio do Henrique
  • E aí, já descobriu que eu estava certa? 
  • Não. Descobri que você não vive em uma bolha – é pior, vive numa gota. Veja bem, para você é muito simples apontar o dedo para mim. Gordinho, queixo para trás e cabelo sarara. Realmente, não é muito atraente né? Você tira uma selfie, posta no insta, uns 10-12 candidatos a ficar com você curtem ou respondem eu story. Desses, você ignora uns 7 ou 9 e conversa com o resto. Depois você marca um encontro, come de graça, bebe de graça e depois beija o pretendente. Pra você é muito simples. Não consegue olhar um palmo a frente. Eu sou o 9 que você visualiza a mensagem e não responde. Faça-me o favor de não dar mais pitaco em minha vida. 

Não conseguia acreditar como alguém achava que poderia saber tanto sobre a vida do outro. Ou pior, como poderia achar que tinha a solução e vir me falar! Uma reflexão e tanto…

A conversa acabou. Nunca mais obtive retorno. E ela nunca mais quis ser minha amiga. Acho que nessa, eu quem saí ganhando. Não dá pra dar tanta corda a gente besta. Essa, meu amigo, não pode brincar de esconde – se acha demais para esconder!

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