Ser velho deve ser uma verdadeira merda. As juntas doem. Seus filhos falam com você da mesma forma que falam com seu cachorro, ou ainda pior, como falam com seu neto de 5 anos. Você não tem mais mobilidade. Perdeu sua independência. Não tem mais prazeres carnais a serem desfrutados… Um convite à reflexão diária. Então, você já cansado de lidar com isso 24 horas por dia no auge dos seus 80 anos pensou às 17h da tarde: “vou ao bar assistir um jogo do São Paulo… Pelo menos me distraio.” E me livro da minha mulher – também idosa, por algumas horas.
O bar, por sua vez, não é um asilo exclusivo aos 80 mais. Ainda pior se você considerar que ele fica na esquina de 2 universidades. Mas até aí, tudo bem. Os meninos são agradáveis, brincalhões e o mais relevante: todos torcem para o São Paulo também.
Não menos importante que tudo isso, o jogo só fica completo com uma bebida amarga, amarelada e muito gelada. A cerveja. Seu gerontólogo já o alertou que você deveria parar de beber… Não tem mais controle total da sua bexiga. Para piorar, aumenta seu risco de ter um infarto. Velho e broxa você já é, e não tem mais um remédio sequer que possa te ajudar nessa missão. Nem mesmo 2 azulzinhos te salvam.
No bar, decorado à moda paulista, havia dezenas de destilados empilhados nas prateleiras, dezenas de garrafas de cerveja, um balcão generoso, 3 televisões e aquela luz amarela de fundo que não irritava a visão. O tempero ficava a cargo dos garçons. Uma verdadeira equipe dos sonhos. Todos muito agradáveis e com uma memória afiada… O clima era realmente como se você estivesse em casa conversando com um de seus sobrinhos que aparecem 2 vezes ao ano. Até que um deles proclama em alto e bom som:
- Vai uma original aí, seu Epaminondas?
Ele pensa por uns 5 minutos. Lembra da feição do seu médico e do boleto da funerária que pagou naquele mesmo dia… e fala:
- Traz logo um balde com 3 original de 600ml – com uma voz rouca e grave, mas nada que comprometesse sua comunicação.
Uma mesa com 8 jovens rapazes ao fundo:
- AEEEE, bota pra descer! – Era tudo que ele não precisava…
Assim foi feito. O jogo começou e o São Paulo precisava fazer 2 gols fora de casa para avançar à próxima fase da competição. No tempo do seu Epaminondas, era a copa Rio-São Paulo. Mas hoje, é só o Paulistão mesmo.
Um gole, dois, três, e a primeira garrafa se foi. A bexiga do nosso velho amigo começou a encher. E não havia perguntado a ele se isso seria um problema… Mas nós já sabemos que sim. Para tentar disfarçar a vontade de mijar, pensou: “Vou comer alguma coisa…”. Um outro ponto aqui, é que seu médico cardiologista havia o alertado mais de uma vez:
- Suas artérias já estão trabalhando no limite… Evite qualquer tipo de gordura e fritura. Prefira alimentos sadios e fritos sem óleo.
- Pode deixar, Doutor! Vou bater os 100 anos.
- Amém!
Dito isto, ele chama nosso amigo Álvaro, o garçom gente fina. E aqui vale um adendo. Esse bar era legal por mais um motivo: todos os garçons eram de um lugar do país. Um era do Ceará, o outro do Rio Grande do Norte e o nosso amigo, de Minas Gerais. Um rapaz de 26 anos, mas que rodou sem óleo. A pela em crostas. Um lenço que passasse pelo seu rosto seria suficiente para fritar uma galinha inteira… Mas tudo bem, nós aqui nos preocupamos com a essência das pessoas, não com a sua aparência, né? Com isso, nosso senhor o chama:
- Oh Alvarooo! Traz pra esse velho aqui uma porção de polenta frita.
- Individual ou dupla? A individual é mais barata 5 reais só…
- Então traz logo a dupla.
3, 4, 5 goles depois e lá se ia a segunda garrafa. Ele já havia deixado o mijo escapar 2 vezes. Mas estava se sentindo tão jovial e feliz que nem pensava que em mais 5 minutos ele iria por água ou abaixo. Ou melhor, mijo abaixo. Não demorou e chegou o garçom com sua porção DUPLA de polentas fritas. E ele, vale ressaltar, estava sozinho na mesa.
O jogo que estava rolando era mais um daqueles jogos chatos que estava 0x0. Um clássico do futebol brasileiro. Passaram-se os 45 minutos do segundo tempo e o nosso velho amigo não conseguia mais ignorar: precisava mijar. Mas aqui tem um detalhe que não posso te deixar passar: velho pra mijar precisa de tempo. É preciso afastar a mesa, pegar a bengala, analisar o ambiente, começar o procedimento de levanta, e aí então, caminhar por 5 minutos até a porta do banheiro.
Mas nós já falamos aqui: a bexiga do seu Epaminondas não havia se importado com seus ímpetos jovens. E estava trabalhando normalmente. Ao menos, foi o que o seu gerontólogo o informou na semana passada. Pois bem, nosso velho amigo começou o procedimento descrito no parágrafo anterior. Já havia deixado escapar mais 2 ou 3 vezes a urina, mas ele é velho. A gente entende.
O banheiro estava cheio. Até que limpo. Mas cheio. O intervalo reúne todos que desejam mijar em um só lugar. Seu epaminondas teve que esperar na porta pela sua vez. Não podemos culpar os jovens. Eles não sabiam da situação completa. Nem que o senhor estava na porta.
A pupila fechava, o coração disparava e a mão tremia. Antes, suas crises de ansiedade eram para pagar os boletos. Hoje, são para conseguir mijar no momento e lugar correto. Ele só conseguia pensar:
- PRECISO MIJAR PRECISO MIJAR PRECISO MIJAR
E não havia nada que ninguém pudesse fazer. A urina começou a descer. Não teve jeito. Ele cada vez mais ansioso e cada vez mais sujo… Não tinha o que fazer.
Chegou sua vez ao banheiro. Ele via o vaso como um filisteu avista um oásis. E finalmente conseguiu realizar todas as suas vontades. Nunca imaginou que chegaria nesse nível. Mas chegou e o problema estava resolvido. Não fosse por um problema: não deu tempo de chegar o mictório.
Assim, ele realiza suas necessidades no chão do banheiro. Na esperança que o ralo absorvesse o líquido e o basculhante levasse o cheiro. Problema resolvido. Vamos ao procedimento de saída do banheiro. Levanta as calças, limpa a bigola, pega a bengala, abre a porta e…. Se depara com um jovem em sua frente. O jovem nada disse. Estava aguardando sua vez. Contudo, sua mente havia ido mais longe e ele estava cheio de vergonha. Proclamou:
- Filho, aprenda. Eu mijo no chão que é pra economizar água!
E saiu gargalhando.
Velho filho da puta, pensou o Álvaro.