Amor de puta

Entupida, fria e mal amada – murmurei logo que cheguei nessa nova cidade. Como pode! Uma imensidão de prédios, carros, pessoas, pedintes… Todos se ignorando em um só lugar. Apesar de chegar em janeiro, São Paulo (SP) é fria todo o ano. As pessoas andam como se não se importassem com as outras. E talvez realmente não se importem mesmo. O primeiro sorriso que recebi – não surpreendentemente, foi de um pedinte disfarçado de palhaço. 

Pois bem, passada essa virada à paulista em minha mente, eu tinha que escolher um lar para ficar. Sabia que seria temporário, mas não seriam 2 semanas que iria ficar. Caminhei por moema e encontrei um condomínio que mais parecia um hotel. Porteiros de terno, segurança 24h e câmeras para tudo que é lado. Tudo bem. Conversei com um porteiro que lá estava. Pelo que lhe pagam, era bem esperado que ele não estivesse muito bem humorado…

  • Boa tarde! O senhor trabalha aqui? 
  • Trabalho. 
  • Ótimo. Saberia me informar se há algum apartamento disponível para aluguel aqui, por gentileza? 
  • Têm. 
  • Certo. Com quem poderia tratar? Tenho interesse. Já puto com a boa vontade do porteiro que ali estava
  • Olha lá no site – E bateu no QR code colado na mesa. 
  • Obrigado e tenha um bom dia – Não obtive retorno…

Pois bem, consegui efetuar esse aluguel. Em um quarto, a bagatela de 4,5k cruzeiros. Ok, “é o preço SP”. Apesar de muito completo, tinha algo nesse condomínio que me chamava muita atenção: muitas mulheres bonitas e chamativas. Não conseguia entender. Será que são todas as paulistas assim tão bonitas? Teve uma vez que não me aguentei e abordei uma dessas moças que parecia mais aberta a um diálogo: 

  • Oi. Bom dia. A senhora mora aqui? 
  • Oi meu bem – falou com uma voz afinada. Moro sim, Por quê? 
  • Ah, legal. Eu moro por aqui também, mas me chama atenção como todas as meninas são tão bonitas aqui no condomínio. 
  • Ah, amor, muito obrigada – e aqui já havia ficado claro. Qual que você mais gostou? 
  • Ah, não pensei por esse lado. Só me surpreendeu mesmo. Uma surpresa positiva. 
  • Amor, acessa aqui esse site “splove.com” – e clicou em um perfil com sua foto. 
  • E te digo mais.. Meu job é 500… Mas por mais 200 eu deixo seu flat limpo e um feijãozinho pronto. Você quer? 

Seu nome era Fernanda, mas eu a chamava de “amor” e vivemos esse romance à paulista por 6 meses. Até ela decidir que seria mais produtivo vender seus serviços na França e ganhar em Euro… 

  • Lá paga mais, amor. E eu já tenho um agente lá – Guardando seu batom na bolsa como quem guarda um contrato

Eu ri discretamente e a agradeci por tudo. Não pesava para ninguém. Era importante alguém como ela em minha vida. Ela precisava do dinheiro. 

Nos despedimos na portaria e ela entrou no carro me olhando. Continuo com saudade daquele feijão.

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