Mudei de janela. Saí de uma pequena — já domesticada por uma cortina — e fui parar numa varanda maior, nua, sem tecido nenhum para me lembrar de que dentro é dentro e fora é fora. Em São Paulo, essa diferença é mais teórica do que prática: abre-se a janela e, além da rua, abre-se o catálogo inteiro dos outros. E, de bônus, a gente também entra nesse teatro.
De dia, o sol bate forte e tudo vira reflexo. É no cair da noite que a cidade afina o foco. Encostado no batente da cozinha, esperando a água ferver para uma xícara de chá, vejo a moça do quinto andar esticando o corpo num tapete de yoga; no sexto, o mesmo sujeito de sempre, fiel ao futebol e aos comentaristas — Vampeta e outros comentaristas. Alguns andares acima, um casal conversava com as mãos e com a cara, aquele tipo de diálogo que não pede legenda. Mais intrigante era o vizinho do cigarro: a cada duas tragadas, abanava a fumaça para dentro como quem varre um crime e ainda olhava por cima do ombro para conferir se ninguém o vigiava. Além de mim, claro.
Tentei me iludir, nesses vinte dias de espera pela cortina, dizendo que era só curiosidade. O que eu não projetei é que curiosidade também tem retorno.
A secadora apita. Vou recolher as roupas e me pego escolhendo o que vai para o varal como quem escolhe figurino. “Será que vão reparar no tamanho da minha cueca?” “Melhor não estender essa calça. A mancha aparece.” O interfone toca: um jogo de dez panelas chegou e não pode ficar na portaria. Eu ajeito o cabelo, estico o pescoço, endureço o rosto, encolho a barriga. Foi aí que caiu a ficha: eu não estava só assistindo. Eu já estava atuando.
Numa terça à noite, pego meu chá e sento na varanda como de costume, fazendo a checagem do prédio da frente — a yoga, o futebol, o casal, o fumante. Só que, dessa vez, a moça do quinto andar não estava no tapete. Estava no sofá. E estava olhando para mim com um sorriso de canto de boca, desses que parecem saber alguma coisa.
Desviei o olhar na hora como quem derruba um copo. De repente, toda a minha filosofia sobre observar a vida alheia se desmontou como varal mal preso. Fugi para o escritório e fechei as janelas, como se vidro fechasse pensamento. O que ela viu? O que ela inventou? Feio? Gordo? Mal vestido? Intrometido, com certeza.
No fim, para fins práticos, pouco mudou. Não memorizei o rosto dela para reconhecê-la na padaria da esquina — e imagino que ela também não tenha memorizado o meu. Mas ficou nítido: todos nós, de janelas abertas, jogávamos o mesmo jogo. Cada um no seu papel. Cada um acreditando que é plateia e não ator.
Agora faltam poucos dias para a cortina chegar. E o que mais me espanta não é a ideia de recuperar a privacidade. É perceber que estou um pouco chateado. Não pela falta do pano, mas pela falta do teatro.