Nauseado e tonto com o acordar das 6h da manhã, começo mais um dia. O pique aqui em casa começa cedo mesmo: às 7h começa a aula e às 8h começa o turno do serviço que traz o sustento. Acordar nesse horário já era um luxo fruto de negociação materna; o certo mesmo seria às 5h. Ainda sem entender o meu entorno e me lixando por alguns minutos a mais de sono – mesmo sabendo que de nada adiantariam –, levanto-me. Até o sangue demora a chegar à cabeça, oferecendo alguns minutos de tontura e desamparo. Todo dia é um pequeno “descobrimento” forçado do mundo.
Já em pé, um banho me aguarda. Gelado como uma geleira, entro debaixo d’água sem pensar e logo me arrependo. Tiro o corpo para fora e penso em uma solução ao mesmo tempo que a minha cabeça grita: “Rápido, rápido, você tem pouco tempo. Já está atrasado.” Contento-me com leves esparrelas, entrando e saindo rapidamente da água, tentando encontrar um ponto de equilíbrio entre acordar e me limpar sem sofrer um choque anafilático no caminho. Coloco o shampoo na cabeça, esfrego, passo o sabonete só no “verso da frente” do corpo e, entre um enfrentamento com a água e outro, digo pra mim mesmo que estou limpo e encerro o “banho”.
Coloco a farda da escola e corro para o desjejum. Minha mãe corre de um lado para o outro, tentando conciliar o estendimento das roupas recém-lavadas com o preparo do almoço daquele dia. Sem nem olhar muito, só exclama:
— Café tá na mesa, vê se não atrasa hoje de novo.
Pego a xícara e tomo um gole seco. Não tarda para que aquele líquido preto e fumegante chegue ao meu estômago, e já sinto uma dor que me contrai as costelas e range o maxilar superior com o inferior. Tomo um gole d’água e procuro o pão do dia para me saciar. Ela passa a mão de leve no meu ombro enquanto ajeita outra panela. Preocupação em forma de gesto, bronca em forma de frase.
Ainda com aquela náusea desconfortável, vou para a escola de carona com o meu pai e já ouço alguns elogios:
— Não sei como você vai fazer pra passar nesse vestibular. Via sua irmã perdendo noite, girando caderno pra cá, livro pra lá. Já você não se importa, não faz nada. Quero ver o que vai ser feito de você quando a prova chegar. Eu não pago faculdade pra filho meu.
Chego à escola no limite do horário e, com o portão quase fechando, o porteiro abre uma fresta e me deixa entrar com um olhar que diz “olha lá, hein”. Chego à sala de aula e o professor já está lá, arrumando o material para o início pontual às 7h. Procuro o meu típico lugar, entre a parede do fundo e a cadeira, e aguardo o início da disciplina com nada mais que o meu celular e uma caneta esferográfica em cima da mesa. Antes da aula, o coordenador entra na sala e profere algumas palavras motivacionais:
— Vamo lá, gente, faltam só seis meses pra prova. Tão vendo aquela cadeira ali? Foi dali que saiu mais um aprovado em Medicina na USP pelo nosso colégio. A responsabilidade agora é de vocês.
No meio da aula de Química, um amigo se senta ao meu lado e encontramos uma conversa mais legal que os hidrocarbonetos. Ele pergunta:
— E aí, vai prestar pra quê?
Eu, olhando entre o sapato dele e o piso da sala, respondo:
— Cara, tô entre Direito e Engenharia Civil. E você?
Com um riso escondido no olhar, ele diz que está entre Medicina e Direito. Muito bem decididos que estávamos, olhamos para o relógio. Era hora do intervalo. Pegamos umas moedas e fomos até a máquina de café, tentando encontrar alguma energia para o restante da manhã. O tempo correu até o fim da manhã e o começo da tarde e a sensação foi de que não fizemos nada e nada aprendemos, mas fomos pra casa mesmo assim. O navio da minha vocação seguia à deriva.
Chego em casa e almoço com minha mãe. Ela puxa a cadeira, coloca mais feijão no meu prato e, com um olhar de compreensão, mas antes de preocupação, pergunta:
— Filho, como é que tu vais fazer com esse vestibular? Poxa, faltam seis meses e você não sabe se vai pra esquerda, direita, pra frente ou pra trás. Na dúvida, faz Direito mesmo, depois a gente vê.
Olhando para o feijão e juntando ele ao arroz, penso que essa questão está muito além de mim e apenas continuo olhando para baixo, na tentativa de me afastar de qualquer uma dessas perguntas. Sigo o dia com essa pulga atrás da orelha, como se tivesse sido colocado num barco sem mapa e me mandassem “descobrir um continente” até dezembro.
Sentado na cama e ainda com a farda da escola, olho para o lado e vejo o travesseiro me convidando a matar o sono não dormido pela manhã. Deito e, quando olho o relógio de novo, já são quatro da tarde. Não havia estudado nada e, às 18h, já tinha aula de resolução de questões do vestibular na escola.
Antes disso, meu pai, que tinha vindo pra casa de atestado nesse dia, não deixa de fazer mais alguns elogios. Imaginando que eu estava dormindo, escolhe minha mãe como interlocutora:
— Esse moleque não quer nada! O que a gente fez, porra? Eu nunca vi nada assim na minha vida. Vai virar corretor de imóveis.
Ela não responde na hora, só suspira, enxuga as mãos no pano de prato e volta para o fogão. Cada um descobrindo o filho à sua maneira.
Os dias passaram e muitos foram iguais a esse. Até que um dia resolvi fazer uma roleta-russa de cursos com meus pais. O que eles não criassem objeções, eu faria. Isso mesmo: eu não me sentia apto para fazer essa escolha e deleguei para eles, como quem entrega o leme do navio.
Direito?
— Mais uma área saturada, vai acabar dirigindo Uber.
Psicologia?
— Qual psicólogo homem que você conheceu que não fosse viado?
Segui, ainda não tinha desistido.
Engenharia?
— Você não é bom em matemática o suficiente, vai ser um profissional meia-tigela.
Huuum, tinha que haver uma saída. Eu gostava de assistir àqueles vídeos de finanças pessoais e empreendedorismo e logo pensei: Economia?
— Bom curso. Acho que você leva.
E haverá luz.
Prestei vestibular para Economia. Na federal, não passei, mas na particular somos todos filhos. Acabou que meu pai pagou e eu me formei. Ele ganhou o diploma, eu ganhei um mapa mínimo pra sair do porto.
Satisfeito?
Agora eu escrevo crônicas. Acho que, se tem alguma descoberta aqui, ela tá menos no curso que eu fiz e mais no fato de finalmente ter encontrado um jeito de contar essa história.