O Master e as pombas

Perambulando pela Faria Lima em busca de uma boa crônica para você, dou de cara com a fachada do Banco Master — aquele mesmo que oferecia investimentos a taxas superatrativas, onde você talvez tenha colocado alguns caraminguás em busca de um bom retorno. Na porta, não poderia haver cartaz mais depressivo: “Liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central”.

Para algumas, porém, tanto faz o nome, quem dirá o estado do banco. As pombas seguem buscando farelo com a alegria e a aleatoriedade de sempre.

Elas não se metem em encrenca porque sabem onde pisam. Se alguém chega perto demais, voam. Se a fome aperta, voam para o resto de pão mais próximo. Vivem um dia de cada vez: voam, comem, sujam a calçada. Sem se perguntar de onde veio o milho nem quem pagou por ele.

Sentado em um banco de ferro na calçada, em frente à fachada, observo o vai e vem dos transeuntes — esses que passam, caminham, mas não lembram de nada. Atrás de mim, um taxista recostado no seu belo Corolla preto, bandeira dois ligada — táxi de rico. Esbravejando, ele comenta:

— Jovem, eu sou do tempo do Bamerindus, do Banespa. Esses aí são um bando de aventureiros. Quebraram porque roubaram demais. Tem que saber fazer a coisa.

Para completar a cena, senta-se ao meu lado um casal jovem, não mais que trinta anos cada um. Com a gana de “ganhar a vida”, eles conversam sobre o conselho que vêm recebendo:

— Olha, amor, o assessor falou que nosso ressarcimento foi aprovado — diz ele.

Ela franze a testa:

— Mas o que é isso, amor? Vão devolver nossa grana?

— Vão, sim. E ele já achou um investimento que está pagando um juro parecido, acredita? Esse cara é bom mesmo.

Entusiasmada, quase com a pupila maior que os olhos, ela pergunta:

— Quanto do CDI? Menos de 120% acho que nem vale, né?

— É, menos do que a gente ganhava é complicado de aceitar. Difícil vai ser achar. Mas qualquer coisa o FGC banca. Olha aqui: tem um tal de DavosBank pagando 130%. Vou pedir pro assessor olhar isso.

O que o Master fez não é muito diferente do sonho vendido por Madoff e por tantos outros. Funciona, em linhas gerais, assim: eu, bom fanfarrão preocupado apenas comigo, te ofereço um retorno tão bom que parece impossível recusar. Você, desesperado para multiplicar suas economias sem grande esforço, aceita sem desconfiar muito e já pergunta como faz para investir.

No começo, os juros caem na conta certinho. Se eu prometi 150% do CDI, as primeiras vítimas recebem sem grandes problemas. O truque é simples: pago os primeiros com o dinheiro que arrecado dos que chegam depois. A bola de neve começa a rolar morro abaixo.

Em certo ponto da ladeira, você percebe que não precisa sacar o dinheiro com tanta frequência. Já que estou pagando e você agora confia em mim, decide deixar a grana lá por mais tempo, pra ver um montante ainda mais bonito. Mas essa fábula é conhecida e sempre vem com data de validade escondida em letras miúdas.

Aos poucos, o dinheiro novo deixa de ser suficiente pra bancar os antigos, e a bola de neve começa a encontrar uma muralha no caminho. O nome disso é antigo: esquema Ponzi. Não tem mistério — os novos pagam os antigos, e você só se dá bem se for um dos primeiros a entrar. E a sair.

As pombas da Paulista não se ofendem quando jogamos migalhas. Muito pelo contrário: correm até elas como se suas vidas dependessem daquilo — e talvez dependam mesmo.

Nós, ao contrário, ainda ousamos questionar a “pouca generosidade” do Banco Central através do FGC. É mais ou menos assim: você escolhe um cofre ruim pra guardar o dinheiro e, se ele é roubado, seu pai te ressarce o valor com os juros combinados.

Queremos juro alto, risco baixo e, de preferência, a certeza de que, se algo der errado, ainda haverá alguém para olhar por nós e pelo nosso dinheiro.

Quando a música para e a cadeira some, chamamos de “escândalo financeiro”, “fraude bilionária”, “crime contra o sistema”. São todas expressões verdadeiras, mas falta uma: “nossa fome de dinheiro fácil”. É como o sujeito que ostenta ter transado com a prostituta sem pagar. Muito bom para ser verdade, né?

Naquela tarde, nada mudou. As pombas continuam disputando qualquer farelo disponível na calçada. Nós continuamos procurando outro Master pra acreditar.

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