Mulher dama

A mulher-dama é dona da profissão mais antiga do mundo. É a mulher que faz a festa dos casados e mata a carência dos solteiros. Por alguns (muitos) trocados, negocia qualquer coisa: um baseado, um fetiche e até um cafuné no cabelo. Conheci uma dessas mulheres: alta, um metro e oitenta; loira, de olhos verdes e com um perfume absolutamente inesquecível. Deitada na cama, enquanto conta os minutos em tragadas de um cigarro, olha para mim e trocamos alguns pensamentos que ficaram encardidos na minha mente.

Na parte de trás da coxa, uma mancha quase da cor do batom. Não pude deixar de comentar:
— Isso aí doeu? Deve ter sido uma super noite, hein? He-he-he.

Com um riso forçado, respondeu:
— Imagina, é só picada de mosquito, menino. Lá em Capão, na Bahia, onde passei o Ano-Novo, tava cheio. Mas, olha, foi tão legal que quase não volto.

O problema é que esse “só” não combinava de jeito nenhum com o tom da pele dela. Lembrei que tinha comentado gostar de levar uns tapas entre quatro paredes e anotei, mentalmente, mais uma mentira que ouvi das mulheres-dama.

Ela dava tantas tragadas no cigarro que o coitado não aguentou e acabou. Ao colocar a mão na bolsa para pegar outro, notei um anel no dedo anelar esquerdo. Aquele anel parecia feito para não chamar atenção e, ainda assim, passar uma mensagem. Talvez para lembrar do amado enquanto trabalhava. Uma forma de propósito, quem sabe.

— Bonito — comentei, mais interessado em saber quem tinha dado do que no anel em si. — Ganhou de quem?

Ela não respondeu um ríspido e honesto “de ninguém”, com um “não se meta” oculto. Em vez disso, encheu minha memória de curto prazo com uma série de linguiças bem inventadas: falou da loja, do material, da vez em que quase o perdeu, de como combinava com a pele dela e mais um sem-número de características que eu não fazia a mínima questão de saber. Da origem, nada. Eu mal tinha terminado a pergunta e o assunto já era outro.

Em algum momento da conversa, já com a garganta incinerada de cigarros, ela soltou, espontânea:
— Sabe, gato, se for pra me relacionar mentindo, é melhor não me relacionar. Sou muito bem resolvida com isso.

Falou como quem fecha uma porta depois de brigar pela herança dos pais. Alguns minutos depois, comentou que não tinha ninguém: nem marido, nem ficante, nem namorado, nem nada. O anel continuava ali, brilhante, rodeando todo o anelar esquerdo.

Bem resolvida com o trabalho? Com a solidão? Com a mentira?

Era daquelas moças que não sabem o quanto são belas. Chamaria atenção em qualquer supermercado e ganharia concurso de modelo em qualquer agência. Alta, esbelta e carismática, o corpo parecia ter sido desenhado pelo mais caprichoso olhar.

E, ainda assim, escondia o roxo na bunda como se fosse culpa dela. O anel, como se fosse segredo. E, pior: escondia a própria carência atrás de um “sou bem resolvida” dito com mais vontade do que certeza.

Fiquei pensando em quantas versões de si mesma ela precisava inventar para conseguir dormir à noite.

Na hora de ir embora, ela ajeitou o vestido, girou o anel, alisou os cabelos e me deu um beijo com gosto de “quero mais”, tentando fidelizar o obeso cliente. Saí para a rua com a impressão de que quem saiu de lá fui eu. Ela continua lá, dividida e amargurada pela garota de três anos atrás que decidiu vender o corpo, enquanto repete para si mesma que “está tudo bem”. Pela primeira vez, tive certeza de que a beleza não é privilégio. É só um jeito caro de se esconder.

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