O peso do envolvimento

Atordoado pelo som estridente da buzina de um carro, seguido de um grito qualquer no trânsito, me pego ouvindo a vida alheia em um desses barzinhos de esquina da avenida Paulista. Ao lado, duas moças muito bonitas e chamativas. Ao longo da conversa, fui entendendo melhor qual era a profissão delas. E o que as fazia ter tanto assunto, enquanto eu bebia solitariamente uma garrafa de 600 ml.

Enquanto dava mais um gole na cerveja, ouvi uma delas dizer algo que me capturou na hora:

— Amiga, sabe o que é foda? A gente se deita todo dia com cinco, seis caras. Ganha uma bolada e, quando vai ver… já acabou o dinheiro todo.

A outra não demorou a responder:

— Deitar com cinco, seis ainda vai… E aquela sensação de merda depois que acaba? O cara tem o prazer dele, faz aquele show todo… e a gente? Junta mais uns trocados. Dinheiro é bom, mas, sério mesmo, já tô ficando cansada disso.

A primeira assentiu, mexendo no copo:

— E ainda tem quem diga que é dinheiro fácil, né? Quando vejo homem falando isso, pouco me incomoda. Já sei que não sabe do que tá falando. Mas quando é mulher? Depende de homem pra comprar um pão na esquina e chama a gente de quenga, de piranha. Nunca vi uma raça pra se criticar tanto igual nós, mulheres.

A amiga deu uma risada curta, sem alegria:

— Não é nem que eu me sinta usada. Eu me sinto suja, podre até o último osso. Como se alguém passasse ali, jogasse um balde de lixo em você, saísse correndo e esquecesse a carteira.

A outra respirou fundo antes de falar:

— Isso é foda também. Mas tem uma situação que me deixa ainda mais nauseada. Uma sensação ambígua de poder e culpa. Não sei como o Dostoiévski não escreveu sobre isso. É a cara dos livros dele.

— Qual? Você já falou da sujeira e do dinheiro “fácil”. Não é possível que tenha algo pior.

— Ah, pra mim tem… Eu me sinto arrasada quando vejo que o cara tá se envolvendo com a gente. É foda. Ao mesmo tempo que eu tenho o poder ali de colocar ele na minha mão e tirar o dinheiro que eu quiser, sei que ele vai se sentir um lixo lá na frente. Vai, fala aí: quantas vezes um cliente já se apaixonou por você e não foi recíproco? Noventa e nove por cento das vezes ainda é pouco.

A outra tentou aliviar:

— Também, como é que não vai se apaixonar numa gata dessas? Sou puta, mas sou gostosa, menina. Vem com essa não.

— Claro que você é linda. Se não fosse, ninguém pagava pra ficar com você. Mas eu fico nesse misto de “vou aproveitar e pegar o máximo que der, ele que se vire depois” e, ao mesmo tempo, me sentindo mal por fazer isso. Deixa eu te contar o que aconteceu ainda esse ano.

— Vixe, lá vem. O ano nem bem começou e você já fudeu com alguém… — disse, rindo.

A amiga ignorou a provocação e continuou:

— Vê só. Ele começou me contratando normal. Já achei estranho porque ele escolhia sempre a casa dele como lugar. Isso é bem incomum no perfil dele. Quando o cliente pede pra fazer na casa dele, geralmente é algum louco querendo encher o cu de droga. Mas ele não. Era um garotão, nem vinte e cinco anos devia ter, e me chamou lá. Beleza, fui, prestei o serviço e ele me pagou numa boa. Na hora de ir embora, enquanto eu me vestia, vi que ele tinha uma senhora biblioteca, daquelas que dá gosto. Peguei um livro que já queria ler fazia tempo e perguntei se ele tinha gostado. Ele disse que sim, que era uma obra sensacional, nas palavras dele. Aí fui embora, sem o livro.

Ela fez uma pausa, tomou um gole, e continuou:

— Depois de um mês, mais ou menos, ele me chamou de novo. Apareci lá e ele tava com um embrulho de presente com o meu nome. Perguntei se era pra mim, ele disse que sim. Quando abri, era o mesmo livro que eu tinha achado interessante. Ali eu vi que era presa fácil. Novinho, com uma grana legal e doido pra se apegar a alguém.

A amiga gargalhou:

— Aí você aproveitou, né?

Ela deu de ombros.

— Dei nele a melhor chupeta da vida dele. Deixei o cara pronto pra dormir. Mas eu me enganei muito. O que ele queria mesmo era afeto. Sexo ele consegue com qualquer outra. A gente continuou saindo e fui dando mais corda pra ele. Até que um dia vi que tinha passado do ponto: ele tava bem envolvido, e a gente já tinha saído até fora do contexto de programa. Deu pra perceber que, na cabeça dele, era recíproco, que tava empolgado comigo. Ali eu me senti mal como nunca.

Silêncio curto. A amiga perguntou, mais séria:

— E aí?

— Comecei a responder ele de forma grosseira, ríspida, a ignorar no WhatsApp, pra ver se ele se tocava. Um dia, ele me tirou do Instagram e falou que não contratava mais puta. E foi isso. Nunca mais tive notícia. Prefiro nem ter, peguei pesado dessa vez. Vi ele pelo vidro do carro de outro cliente meu. Tava esperando o sinal fechar pra atravessar. Me encarou com uma cara de ódio e desprezo que eu nunca vi na vida. Foi quando pensei que o meu trabalho não podia significar a ira do outro. Eu não fui honesta com ele.

A outra balançou a cabeça, sem muita culpa:

— Amiga, você foi muito besta. Ficou mal por isso? Se eu tô no seu lugar, quando ele fala que não contrata mais ninguém, eu perguntava se ele ainda não queria ser meu amigo. Pra ver se o idiota pescava a isca de novo e eu pegava mais uns trocados. Tô aqui pro que der e vier. Ele que se apaixonou, não eu.

Quando a conversa delas acabou, eu não tinha mais nada a dizer ou pensar. Estava tão arrasado quanto a amiga que contou o caso do cliente apaixonado. No fundo, concordo que ela poderia ter sido mais honesta. Mas, também, ela não estava trabalhando?

Volto para a minha mesa e só agradeço a paz de poder beber sem uma companhia como essa.

Também vale dizer que Dostoiévski escreveu sobre isso, sim; chama-se Noites Brancas.

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