Resenha: Talvez Você Deva Conversar com Alguém – Lori Gottlieb

Existem alguns livros que conseguem falar sobre terapia, mas são poucos os que conseguem te colocar dentro de uma sessão de terapia verdadeira, desmascarar tantas histórias e gerar tantas identificações de uma só vez. O livro “Talvez Você Deva Conversar com Alguém”, de Lori Gottlieb, faz um misto interessante entre mostrar o drama de alguns casos marcantes de sua carreira e o drama pessoal que a própria autora vivia. E é isso que gera o maior trunfo desse livro: mostrar que a terapia não é um lugar “reservado aos loucos”, mas um lugar para todos.

Do que o livro trata?

A estrutura do livro é muito semelhante à de uma novela, mesmo não sendo uma. A trama começa com a desilusão amorosa da própria autora, que, em meio a isso, começa a ter uma forte crise de autoimagem e recebe um conselho da sua amiga que deu origem ao nome do livro: “Talvez você devesse conversar com alguém”. E é aí que surge uma das figuras centrais desse livro, o Wendell. É com ele que ela mostra toda a fragilidade e humanidade, passando a experimentar, ela mesma, o que propõe aos seus pacientes.

No consultório dela, acompanhamos as vidas de alguns de seus pacientes mais marcantes ao longo da carreira, referidos como John, Julie, Rita e Charlotte — cada qual com um sentimento e um problema central diferentes. Aos poucos, ela mostra como o processo terapêutico é capaz de revelar camadas mais profundas das nossas queixas do dia a dia e expor sentimentos mais profundos sobre cada uma delas.

Um ponto de que gostei no livro e que me faz recomendá-lo é que a autora mostra o lado “humano” da terapia e não coloca o seu papel como meras frases de efeito. Além disso, ela persiste em uma ideia central desde o início: a dor começa a se transformar quando você entende qual é o seu papel nela, trazendo a responsabilidade para cada um de nós.

Por que o livro funciona tão bem?

A meu ver, existem duas questões centrais aqui. A primeira é que a autora era escritora antes de ser psicóloga. Isso confere um conhecimento sobre enredo, narração, conflito externo e interno e até de personagens muito mais profundo do que alguém que fosse apenas psicólogo e tentasse narrar seus casos mais marcantes.

A segunda é que a terapeuta utiliza uma técnica comum no consultório chamada “autoexposição”. Na prática, isso significa que a terapeuta vai abrir certas questões da sua vida em troca da sua abertura. Isso funciona bem quando você deseja gerar muita empatia com quem você conversa e quando você precisa que o seu paciente abra mais detalhes da vida dele do que aquilo que ele conta.

Assim, ao contar sobre sua própria vida, a autora nos mantém hipnotizados em uma história envolvente — você termina querendo saber onde termina o destino de cada um de seus pacientes e o dela própria.

Temas centrais tratados no livro

A autora trata de alguns temas centrais que reverberam em seus leitores muito depois da leitura. Vou trazer aqui os dois que mais me chamaram atenção e te convido a trazer os seus após a leitura do livro.

O primeiro deles é relacionado às desculpas que criamos para sobreviver. Na prática, eu e você sabemos que contamos várias pequenas mentiras para nós mesmos durante a vida com o intuito de varrer alguns problemas desagradáveis para debaixo do tapete. A autora mostra como isso não só é prejudicial, como gera um padrão de comportamento que prolonga a dor por anos e anos.

O segundo é relacionado com as âncoras que criamos em nossas vidas. Não de forma incomum, chegamos aos consultórios de psicoterapia (eu incluso!) loucos para resolver o problema que nos levou até ali. Pode ser família, trabalho, relacionamento, dinheiro, qualquer coisa. Mas poucos de nós estão dispostos a renunciar às âncoras que fizemos para chegar até ali. Um exemplo prático abordado durante o livro é stalkear a vida do seu ex nas redes sociais — quem nunca, né? Ao longo do livro, ela retoma essa questão várias vezes, e concluí que “a cura” para isso reside em abandonar a âncora emocional que colocamos no nosso antigo parceiro e começar a olhar para o nosso futuro, não o do ex.

O ponto alto do livro

Na minha visão, o ponto alto do livro é convidar cada um de seus leitores a uma reflexão profunda a cada capítulo.

Convenhamos: a maior parte de nós sabe que tem problemas a resolver na nossa mais alta intimidade, mas poucos desejam olhar para isso. Além disso, poucos possuem o acolhimento necessário para buscar aconselhamento psicoterápico.

Assim, quando o livro convida os leitores a viajar na história da própria autora e na de alguns de seus pacientes mais marcantes, fica nítida a tentativa de nos convidar a refletir sobre nós mesmos, sobre os nossos problemas e sobre as nossas questões.

A autora faz tudo isso de forma acolhedora e sempre em uma linguagem muito acessível, aumentando a abrangência da obra. Por vezes, isso pode incomodar alguns leitores mais exigentes.

Pontos de objeção

Se você gostou dessa resenha e já quer sair comprando na Amazon, atente-se: este não é um livro técnico/clínico. É um livro sobre a experiência individual da autora dentro do seu consultório. Então, não dá para esperar uma superobra acadêmica, pois esse não é o objetivo do texto.

Também não acho que seja produtivo transformar o livro em um checklist de autoconhecimento. Ler um livro como esse em 3–4 dias não vai ter o mesmo efeito que a terapia pode ter sobre você. Então, ler o livro pode ser um excelente incentivo para buscar a psicoterapia, mas não achar que vai sair dele “pronto”.

Quem deve ler?

Existem alguns públicos que eu acredito que podem se beneficiar mais dessa leitura do que outros. São eles:

Pessoas que têm curiosidade sobre o processo terapêutico;

Quem está naquele ponto chato da vida, tipo “é só isso?”;

Quem quer conhecer histórias reais de pessoas reais na sua maior intimidade.

Em suma, eu acredito que este seja um dos livros que mais contribui para a classe dos terapeutas em geral por abordar o tema de forma tão didática e acessível, permitindo que mais pessoas possam conhecer a psicoterapia e busquem em si essa jornada do autoconhecimento.

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