Um dia, eu hei de ter um carro

A inveja e o desejo pelo que é do outro são pecados capitais que seguem o ser humano desde que passamos a reconhecer o outro como igual.

Mais do que isso, o “olho gordo” é uma anedota que a gente sempre vai ter aqui no Brasil. É sempre algo como:

– Guarda isso aí, menina. Não tá vendo que tá todo mundo olhando? Depois você não reclama de olho gordo!

Aí, aqui, a gente tem um misto de um monte de coisas que pode gerar inveja no outro, mas no geral, são duas: casa e carro. É batata que você vai no barzinho da esquina, no salão de beleza ou na cafeteria no sábado e a primeira coisa que um estranho vai te perguntar é onde você mora. Nunca entendi essa gana por se comparar onde se mora. Nunca entendi a instituição “mentir” o bairro que se mora para parecer mais rico. Eu moro onde eu moro, qual o problema? Tipo de coisa que me deixa indignado para mais que um dia.

Aí um belo dia, achei de convidar um colega de trabalho aqui pra casa. Que mal teria? Um colega agradável, risonho e brincalhão, era o Carlinhos. Não era ameaçador.

Antes, vale lhe dizer que eu tenho três carros. Isso mesmo, três. Tenho por que eu quero e não vou lhe justificar!

O Carlinhos chega na minha casa e olha logo para as três beldades que tenho na garagem. Não comentou nada de primeira, mas era notável que só faltava comer os carros com os olhos. Para completar, Carlinhos era dotado de um belo par de olhos de bomba. Daqueles que assusta mesmo.

Tomamos café, mostrei minha casa toda para ele, relaxamos e logo chegou a hora que ele tinha ficado de buscar a mulher na faculdade – Carlinhos gostava de exaltar a benfeitoria que fazia pela amada – e eu o acompanhei até a porta, sem objeções.

Enquanto ele caminhava para o portão de saída e verificava se ainda estava com o cartão de transporte para pegar a próxima condução e mais dois metrôs até a faculdade de sua mulher, ele olha mais uma vez para os meus três carros, e dessa vez prefere falar algo.

– Olha, amigo, um dia eu hei de ter pelo menos um carro – Falou Carlinhos.

– Claro que vai ter, amigo. Você é trabalhador e merece – Quase emprestando um para ele naquele dia, mas deixei quieto.

Tudo bem, os dias passaram e eu em uma epifania muito próxima ao que o Príncipe Míchkin* teve, não percebi malícia nenhuma. Nada. Estava até falando bem desse miserável para minha mãe e esposa.

Um belo dia, saí de manhã para buscar minha esposa no aeroporto e advinha? O primeiro carro quebrou, não dava mais partida. Pensei alegre, “ainda bem que tenho dois” e me dirigi para o segundo. Dei chave, e…. Pimba! Não funcionou também.

Já espantado, fui para o terceiro já com medo, mas esse, finalmente, funcionou. Já a caminho de Guarulhos, ele começa a “embuiar” e para no meio da marginal Tietê. Deixando-me sem alternativo ao metrô.

Eu até gostaria de dizer que não, mas só conseguia pensar: miserável desse Carlinhos! Colocou olho gordo em todos os meus carros. E pensei durante toda a viagem de metrô.

Referências

*O Idiota de Fiodor Dostoiévski

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