Olho para a minha dispensa e vejo que disponho de pouco mais de onze cervejas e alguns biscoitos. Apesar de solteiro, penso que posso fazer melhor do que isso e decido que deveria comprar alguns grãos e misturas. O supermercado da esquina é caro, mas é na esquina. Como era pouca coisa, valia o sufoco. Corro para o meu chinelo e logo para o banheiro. Ponho duas borrifadas de uma colônia bacana que ganhei de mamãe, dou uma chapiscada no cabelo e cheiro as axilas, na tentativa de não passar por seboso caso encontre alguém no elevador. Abro a porta do apartamento e logo fico inebriado. Uma mistura de admiração, enjoo e reflexão toma a minha mente até eu poder sentar e esvaziar a chaminé aqui. Com você.
Logo ao colocar o pé do lado de fora, antes mesmo de sequer girar a chave para fechar, sinto um forte cheiro (ou fedor, quem sabe) de um Malbec Black. Forte mesmo: daqueles que, só de pensar no perfume, você é capaz de imaginar o cheiro adentrando por suas narinas e sendo degustado pelas papilas gustativas, dando uma pontada na têmpora direita; típica de uma enxaqueca. Coisa de cinema. Fecho a porta e olho para a minha direita, procurando por onde estariam os elevadores para me voltar ao meu objetivo inicial. Paro ali mesmo e olho para o horizonte: são tantas unidades que mal consigo estimar quantas existem por andar.
Com o rugir da porta e um leve descontentamento, penso em como pode-se empilhar e aninhar pessoas em pequenas gaiolas, como fazem aos passarinhos. Você não concorre no mercado pelo posto de um, mas com certeza não deve concordar em deixá-los presos em uma pequena gaiola e lá ficarem pelo resto de sua curta existência. Contudo, não se impressiona ou se incomoda em passar dias e dias trancado dentro da sua gaiola. Enquanto estou no corredor, com o perfume impregnado nas narinas, penso em como a pobreza encarde tudo ao seu redor. As elites excluem até no cheiro.
Mais do que tudo, você tem o direito de se perguntar por que eu estaria julgando o perfume do rapaz como uma colônia de pobre. Eu só consegui fazer isso porque sou tão — ou mais — pobre do que meu caro vizinho. Todo Natal, são duas colônias do Boticário na conta; mamãe sempre reforça: “filho meu não anda fedido”. Uma dádiva. Sempre bem-intencionada demais, não percebe que, ao fazer isso, carimba-me com um selo de pobre que saio deixando por onde passo. Em alguns locais, mal reconheço os cheiros que sinto.
Quando fiz graduação, escolhi o turno da noite. Sempre pensei que o turno da manhã muito me atrapalhava o aprendizado na escola. Escolhi pensando no ensino, mas descobri que esse é o turno dos que trabalhavam. O perfume era sempre o mesmo: um misto de suor com hidratante Renew, da Avon. A roupa? Uma farda do serviço ou uma camiseta básica disposta apenas para aquele fim. Olho para os lados hoje, na pós-graduação, e vejo quantos alunos do bacharelado dispõem de bens que, caso eu trabalhe uma vida, jamais terei acesso. Os perfumes? Nunca identifiquei. E talvez nunca identifique.
Longe de ser uma revolta, essa é uma reflexão sobre pobreza (ou talvez riqueza) e igualdade. Ao passar umas quinze ou vinte borrifadas de seu Malbec Black, meu caro vizinho jamais imaginou que poderia dar voz a mais uma crônica que vos escrevo, mas deu. Eu continuo pobre e, se meus estudos de economia estiverem corretos, continuarei até o fim dos meus dias. E por algumas gerações mais.
É sempre uma questão de perspectiva: um pouco mais rico ou um pouco menos pobre?