Stalk

Um panapaná de borboletas infesta o meu estômago. Uma pontada daqui e outra dali; era difícil até caminhar. Aquela queimação incessante e aquela enxurrada de pensamentos na cabeça me puxavam para dois lados. Não é fácil lidar com um futuro que nunca existiu.

Olho para o bolsão da mochila e vejo a solução ali, brilhando com a hora e a temperatura local na tela. De um modo que eu não conseguia controlar, minha mente cria uma sequência inebriante de pensamentos: “Vai lá, cara. Poucos cliques e você se livra de mim.” Ou então: “É só baixar o aplicativo, fazer login no usuário fake e acessar aquele perfil… e eu sumo. Depois eu volto, mas agora eu sumo.” Sei que não me faz bem, mas não sei como melhorar.

Uma olhada era tudo o que eu precisava. Trinta segundos de alívio e lá estava eu, stalkeando o perfil de um desastre amoroso. Nada que o ser humano goste mais do que criar uma fantasia com alguém que não te fez bem. Ah! Humano, demasiado humano.

Olho por um instante o perfil no Instagram e fico satisfeito, livre. A enxurrada de pensamentos vai embora — uma injeção de prazer acende alguma coisa dentro de mim. Era como dar uma tragada num cigarro meses depois de não fumar. Uma delícia rápida. Rápida como o alívio, lenta como a culpa.

A culpa adentra e não sai com a mesma facilidade. Julgo a mim mesmo como a pessoa mais burra do universo; como aquela que mal consegue unir esforços para controlar seus desejos e sempre perde a luta contra eles. Uma maré cinzenta sobe e senta no peito. O próximo passo é admitir: eu estava viciado naquela sensação. E o passo seguinte, mais chato ainda, é fazer o que eu não quero: parar. Talvez eu devesse conversar com alguém!

Choro. Mas não choro pela tristeza de ter que me convencer de que meu futuro com aquela pessoa não existe. Choro porque, além de aceitar o fim, eu teria que encarar mais um vício. Um que não precisava existir, não fossem meus impulsos. Ah! Sempre eles, os maiores algozes da existência humana.

Minha terapeuta só diz: mude o foco. Pense em você. Você perde horas e horas do seu dia imaginando um passado e um futuro que nunca existiram. Você precisa anotar aquela frase que te falei… como era mesmo…?

Você em primeiro lugar sempre. Essa era a frase. Foi ela que eu deixei no bolso durante todo o ano passado. Encardido por um sem-fim de obrigações acadêmicas e traumas sociais, eu depositei tudo o que me faltava em uma pessoa. Essa pessoa que deveria ser eu, era uma mulher que acreditei poder levar para a vida. Não adianta protelar: o banquete de consequências sempre virá. Ou você olha por você, ou outrem jamais vai te completar.

O caminho para superar o vício era simples: parar.

Como ex-fumante, a única coisa de que eu tinha certeza absoluta era que o pior dia era sempre o primeiro. Um dia após o outro, fui me convencendo de que a sensação boa de stalkear a decepção só poderia me jogar na fossa a longo prazo. Parei. Sabia que ali estava a cura e me curei.

Eu não parei de divagar e de me divertir pensando — mas agora era sobre mim. Só isso interessava. Talvez seja dessa dose de eu em-si mesmo que você precise também.

Bacana. Já falei muito e quase chorei de novo. Vamos lá: volte ao trabalho você também; tenho muitas leituras a fazer.

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