Eu não me imagino,
Se o senhor ou senhorita já está cansado das crônicas de mudança, sinto lhe dizer que ainda tenho algumas palavras a declarar. Não se deixe levar pelo cansaço, vamos, é só mais essa – ou não. Mas fato é que quem já se mudou sabe que encaixar todos os móveis num espaço pequeno é a dor de um parto. Quando algo parece funcionar, a outra parece perecer e desiste de existir. Assim foi a minha mesa de jantar. Perecida pelo pequeno espaço, a joguei fora. Agora, para me alimentar, tenho sempre a opção de preparar um bocado de alimentos e juntar num prato em frente ao micro-ondas. Veja, é uma questão de perspectiva: pior do que isso seria não ter o que comer, convenhamos.
Coloco meu prato fumegante na bancada e começo a comer. Garfada após garfada, vejo que um sentimento comum e quase beirando o não existencialismo me consome. Olho para frente e noto que o micro-ondas que eu mesmo comprei é espelhado. A imagem? A minha própria, de frente para ele. Com a boca cheia e todo o alimento preso de um lado da boca, olho para mim e busco imperfeições como um pirata o tesouro. A pele? Enrugada e pouco parecida com a de jovem. As bochechas? Desproporcionais, parecem que não foram feitas para o mesmo rosto. E o cabelo? Esse tem que salvar…, mas também não ficou muito legal: ressecado e dotado de duas cores, parece não ter jeito. Estou acabado… Calma! Ainda não acabou: o queixo atrasado empurra a papada e termina o show. Mas, veja: tudo é questão de perspectiva. Eu ainda tenho a cara.
“Quando tiver esses pensamentos intrusivos, silencie a voz do seu pai em você. Lembre-se de mim.” Inundado por uma maré enorme de insegurança, tento encontrar algo que fosse capaz de me deixar menos preocupado. Triste pela minha aparência, começo a pensar em soluções para mim. Sempre tive o sentimento de que as pessoas não deveriam começar a gostar de mim por ser bonito ou não, mas isso começou a fazer mais falta do que antes. Penso que a forma que teria de não incomodar ninguém e buscar conforto seria na minha própria casa. Iria sair para o mínimo necessário, com a mesma lógica do corredor polonês. Sair correndo enquanto tomo algumas pancadas da sociedade no caminho. Mas, veja: tudo é uma questão de perspectiva. Eu ainda teria conforto em casa.
“Você é lindo. Inteligente. Carismático. Ainda vai acreditar em tudo que estou te dizendo. Tenha calma, acredite no processo.” Levanto-me da cadeira triste, com a roupa desbotada, e olho para mim mesmo no espelho da sala e nada penso. Melhoro a posição das roupas, o cabelo, e vejo que ali não seria possível encontrar todas aquelas qualidades. Era muito para processar. Sigo a vida ciente de que a mudança não será rápida. Doze meses era a projeção. Apesar de já ter aceitado internamente que seria mais uma tentativa falha e em vão.
O eu de hoje volta para aquele espelho do micro-ondas e pensa diferente. Ri, faz careta e não mais ajeita o cabelo, mas o bagunça. O eu de hoje transforma as duras palavras que ouviu em piada e crônica. Ele olha pelo espelho e vê que tudo que sempre acreditou era uma mentira. E, longe de ser um pensamento encardido, é um alívio. O alívio de ser e entender que o que vem de fora fica de fora.
Eu existo.