Ainda nas crônicas da mudança, percebi uma coisa que ninguém avisa: São Paulo também pode ser gostosa. Não pela calmaria — isso aqui não tem — mas pelas pequenas intimidades que a cidade te dá sem compromisso. E que, quando somem, derrubam a gente como se fossem grandes.
Cheguei no início de 2025 desconfiado, pouco disponível, desses que confundem educação com distância. Fiquei alguns dias trancado no flat, tentando entender como um adulto cabe em 28 m² sem virar objeto de decoração. “Ainda bem que são só seis meses”, eu pensava — um ledo engano. Em algum momento eu entendi: ou eu saía do casulo, ou a cidade me engolia com casca e tudo.
Minha primeira tentativa de sociabilidade foi prática: desci e perguntei na portaria onde eu podia comer bem sem gastar tanto. A resposta veio antes do endereço. Vi que quase todos os porteiros eram do Nordeste como eu; dois eram irmãos e baianos. Pronto: estava aberta a primeira fresta de pertencimento. No jeito despojado, me apelidaram de “O Bahia”. E assim eu fui conhecido durante toda a minha estada naquele prédio — um prédio que tinha vocação para histórias, mas isso fica para outra crônica.
Aos poucos, perdi o medo de andar na rua. No começo, depois de um assalto no fim de 2024, eu imaginava São Paulo como um corredor polonês: você entra correndo e volta correndo mais rápido ainda, para doer menos. Com duas ou três palpitações por saída, a padaria virou meu oásis. Um lugar onde, por um preço nada agradável, eu encontrava comida e bebida — e uma justificativa para continuar existindo do lado de fora.
Fui devagar, depois fui todo dia. O padeiro aprendeu meu corpo antes de aprender meu nome. “Quatro pães franceses, doutor?” Eu pagava quase dez reais e saía com a sensação esquisita de ser alguém reconhecível. Aos poucos, virei “o local” entre os moradores do flat: de vez em quando alguém me pedia uma informação sobre a região, e eu respondia com um orgulho discreto, como se eu tivesse sido eleito prefeito da quadra.
Acontece que meu apartamento era pior que uma caixa. Tinha pouca mobília e custava, por mês, o preço de uma passagem de ida e volta para Cape Town. Decidi me mudar. Encontrei um lugar melhor, mais barato, na rua de trás, e fechei. Há poucos dias, mudei — e descobri que nem tudo entra em mala. Tem coisa que a gente não ensaca: voz, apelido, rotina, reconhecimento. E eu comecei a sentir muita falta disso.
Esta semana, quando finalmente me declaro assentado, percebo o que não trouxe. O “Iai, Bahia! Trabalhar ou estudar agora?” nunca fez tanta falta. A padaria antiga ficou longe demais para continuar sendo “a padaria”, e a da esquina nova ainda não sabe meu pedido — e talvez nunca saiba. Saí de uma comunidade e estou entrando em outra. Os porteiros não são tão legais, a padaria não é tão boa, e continua cara — como tudo por aqui.
As manhãs cheias de mensagens e e-mails pedindo coisas deixaram de ser harmonizadas por um cumprimento conhecido na portaria ou pelo sorriso do padeiro. Os próximos dias vão ditar o ritmo dessa nova comunidade. Talvez eu leve algo daqui, também. Mas, por enquanto, basta saber que sinto falta do meu apelido.