Na Terapia

Prólogo

Prontuário de paciente – São Paulo, 15 de janeiro de 1970

Nome: Paula Fernandes do Nascimento

Idade: 35 anos

Diagnóstico: Esquizofrenia Paranoide – Código CID: F20.0

Histórico [17:00]: Paciente chega ao consultório no dia 10 de janeiro de 1969 relatando querer fazer uma transição suave de profissão. Ao longo do processo terapêutico, a paciente relata abuso parental contínuo dos 15 aos 20 anos, quando ela saiu de casa por conta própria. Segundo a paciente, a pouca idade e qualificação fizeram com que ela buscasse a prostituição como profissão. Depois de 15 anos atuando, relata queda significativa de clientes e vem para a terapia com o intuito de entender o que se passa em sua mente em todo esse processo de transição. Ainda, a paciente relata uso irregular e abusivo de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos, que, segundo ela, serviram para “baixar a ansiedade do trabalho”; além do uso contínuo de maconha e álcool. Ao longo da terapia, relata sentimentos como o de se sentir usada, suja e sem valor para a sociedade depois da fase jovem. O comportamento ao longo de todo o trabalho pode ser considerado ambíguo: Ora dócil e dedicada a terapia, ora evasiva e com traços agressivos. A paciente relata o forte medo de andar nas ruas por se sentir seguida constantemente.

Sentado em uma estofada cadeira de couro marrom e com uma jaqueta tweed pendurada na cadeira, Roberto analisa o cair do que parece ser uma verdadeira tempestade de verão na capital paulista. O escritório dele sempre parecia ter um toque de organização misturada com elegância exacerbada para um ambiente destinado a terapia. Encerrando o expediente, ajeita a sua postura na cadeira e fica totalmente ereto e alinhado; coloca a caneta de maneira paralela ao seu bloco de notas e bate a gaveta da escrivaninha com uma força ainda um pouco fora do comum. Ele checa o prontuário da sua próxima paciente; limpa cada fio do divã e segue para a porta onde seu último atendimento do dia aguarda na sala de espera junto a pequena máquina de ruído branco – para que ninguém escute a terapia alheia.

Paula entra no consultório um tanto hesitante e pouco animada para uma sessão de fechamento. Após um ano de trabalho psicoterápico, os pacientes chegam com uma força de vontade e felicidade maior. Com o cabelo desalinhado e úmido, ela entra desconfiada e cumprimenta o Dr. Roberto sem o olhar nos olhos diretamente. Com um guarda-chuva vagabundo e barato pingando, ela molha toda a sala de espera do consultório, que enfurece silenciosamente o dono dele. Ainda, um gesto estranho e pouco usual dela de ficar ajeitando as roupas a todo momento aparece. Roberto a encara firmemente enquanto espia o prontuário, pensando que ela apresenta sinais de agitação maiores que em sua última sessão e que não está usando o meio quilo de maquiagem usual. O começo da sessão já indica que algo não sairá como o esperado.

Roberto, já muito experiente, quebra o silêncio do início da consulta de forma protocolar e eficiente.

 – Como você tem passado desde a nossa última sessão, Paula? Está tomando a medicação conforme o nosso combinado?

E ela responde de forma ainda pouco espontânea e desconfiada com os olhos em qualquer lugar entre o tapete e os sapatos do Roberto

– Tou levando como posso, no meu tempo.

 Ele inclina o corpo e faz dois rabiscos rápidos no prontuário, sem prestar muita atenção e sem olhar muito ainda para a sua paciente, ou melhor “cliente” como Roberto gosta de chamar em respeito a eles. Enquanto isso, Paula solta quase rindo

 – Eu sou muito louca mesmo. Ainda tenho medo de parar na rua e não ter do que viver.

 E Roberto responde com um ar paternalista, mas nada acolhedor

– Você não é louca coisa nenhuma. Está em tratamento. Por mais que insistisse que essa fosse nossa última sessão, você está longe de qualquer estabilidade. E sabe disso.

 A frase embalada em uma caixa que mistura cuidado e advertência incomodou um pouco Paula que se endireitou na cadeira, como quem imagina estar ocupando espaço demais.

Aproveitando a deixa deixada por Paula, Roberto pergunta como ela tem conseguido se virar nesses últimos dias.

 – Como passou por esses dias em que combinamos reduzir a sua exposição nas ruas?

Paula demorou um tanto a responder, agora fitando a chuva que já era forte, engrossar mais um pouco. Falou que tinha parado de atender alguns dos antigos clientes – já avisando que iria parar de vez – e que quase não ia mais para a rua. Completou num fio de voz que “não queria voltar mais para aquela esquina… aquela esquina de maneira alguma”.  Engoliu o restante da frase de uma maneira um tanto desajeitada e agora passou a olhar para Roberto. Ele retruca comentando algo parecido com “aquilo que falamos no começo do nosso trabalho, certo?”. Anotou alguma coisa mais extensa no prontuário; do outro lado, Paula apenas meneava a cabeça e começa mexer nas alças da bolsa, guardando o antigo problema mais uma vez.

Enquanto os dois conversavam sobre como seria a vida de Paula sem o acompanhamento terapêutico, a chuva lá fora engrossava para uma verdadeira tempestade. Com o cair cada mais intenso, os trovões começaram a dar o som daquele momento. As luzes da sala principal começaram a piscar e ameaçaram apagar. O pequeno ruído da pena riscando o papel do prontuário se fazia ouvir plenamente. Paula olha com medo para a janela e espia com a visão periférica que lhe resta a porta de saída com o corpo enrijecido. Roberto já a fita com certa impaciência e apenas anuncia que “é uma chuva passageira, não há com o que se preocupar” e suspira forte e irritado.

[17:15]: Sessão realizada em dia de chuva intensa e com trovoadas. Paciente apresenta leve ansiedade associada ao clima, mantendo-se, porém, orientada e colaborativa durante a sessão. Refere temor de sair às ruas por se sentir seguida e de que “sempre algo ruim acontece em dias de tempestade”. Sugestivo de ideia persecutória grave sem evidência observável. Adequa-se às intervenções sugeridas em terapia. Manter plano terapêutico atual com acompanhamento semanal da paciente.

A tempestade segue firme e as luzes se apagaram.

Capítulo 1

Por um instante, Paula sente que a chuva a sua volta fica cada vez mais alta e intensa com o ribombar dos trovões sobre as finas janelas do edifício. O prédio antigo, no máximo ocupava duas ou três salas por andar e o silêncio tomava conta de todo o ambiente. Ela não vê o homem a sua frente, a cadeira, nem muito menos os brilhosos diplomas na parede de Roberto. Tudo que ela consegue sentir é um misto do seu corpo sobre a poltrona em que se senta. Aos poucos, as antigas palpitações voltam a aparecer e Paula coloca a mão na jugular direita e sente o coração cada vez mais acelerado e descompassado. Por alguns segundos, ela tem certeza de que, caso se mova, a escuridão encolherá sobre ela. Enquanto procura o apoio de braço da poltrona em meio a confusão, ela fecha os olhos por um leve contar de segundos que a transporta direto de volta aos seus 15 anos, quando no apagar das luzes, seu pai entrava no quarto.

Em meio à escura sala, o primeiro sentido a voltar é o auditivo – com a voz de Roberto – e não a luz.

 – Paula, é só uma queda de energia. Um pouco menos de drama, por favor. – Com a voz mansa e demasiada calma, ele fala como se estivesse distante e não mais tão próximo de Paula como há alguns segundos

Aos poucos, Paula – já muito nervosa e agitada – começa a ouvir o barulho cada vez mais nítido de passos de quem apenas usava um par de meias e não um par de sapatos Oxford engraxados até a sola. Os passos pareciam cada vez mais distantes, na mesma medida que a voz dele era defasada. Ao fundo, ela tem certeza de que uma gaveta é aberta, mas não sabe o que saí dela.

Roberto acende uma pequena luminária estilo banqueiro, de corpo dourado e capa verde. A sensação que antes apenas encontrava eco nos ouvidos de Paula, agora também ganhava formato diante dela. Seu rosto meio iluminado junto a iluminaria, contrastavam com a longa projeção tomada pelos móveis do consultório que agora pareciam ter crescido mais quatro ou cinco metros. A charmosa jaqueta tweed de Roberto agora parecia estar servindo aos ombros de algum homem, mas não conseguia identificar quem. Ela pisca os olhos e coça-os desejando entender o que estava acontecendo e se reposicionar. Acontece que antes, o escritório de quarenta metros quadrados, parece ter encolhido para apenas vinte.

A atmosfera como um todo, exerce em Paula uma força incontrolável e maior – muito maior do que ela.

– Dr. Roberto, prefiro remarcar. Mal consigo enxergar o senhor e com tudo que está acontecendo eu não vou conseguir me concentrar para fazermos nosso fechamento de forma adequada. Espero que entenda

 Roberto, já impaciente, suspira e parece perder seu instinto natural de calma e frieza, aos poucos ele retruca

– A gente pode usar isso que está acontecendo como um verdadeiro exercício terapêutico de autocontrole e trabalho emocional, não precisa se desesperar. Além do mais que lá fora deve estar mais perigoso. Eu não me perdoaria se você saísse daqui e fosse atropelada por um ônibus no meio da avenida.

 Os argumentos meramente ilustrativos de Roberto não pareceram convencer Paula de que seria uma boa ideia seguir com esta sessão

 – Doutor, se o dinheiro for o problema, eu pago a sessão de hoje – sem problemas. Apenas me libere para sair e vamos remarcar.

A impaciência de Roberto crescia e Paula a monitorava através das suspiradas que ele dava. Sempre que ele soltava mais uma, era certo que um pedaço da sua calma ia junto. Paula desejava apenas se levantar e sair correndo. O problema? Teria que passar por cima de Roberto primeiro para chegar à porta.

Ele decide que já passou da hora de resolver aquela bagunça. Ao caminhar silencioso e discreto com suas meias no chão, ele se dirige até a porta do escritório. Longe de ser um tolo, Roberto coloca a porta de saída para o seu escritório logo a sua direita e sem obstáculos. Para o caso de algum paciente perder as estribeiras e decidir o atacar, ele tem a saída fácil para si. Logo, a sonoplastia de Paula ganha mais um elemento: o barulho da trinca da porta na primeira girada de chave – e mais uma palpitação. Tentando amainar a situação, Paula o dirige a palavra de forma mansa e fala

– Precisava mesmo trancar a porta?

 Com um risinho leve e pouco sonoro. E ele responde ríspido e com pouca paciência

 – Você está mais segura aqui dentro do que lá fora. Esteja calma.

 Antes, Paula poderia até desconfiar que estava presa, agora, ela tem certeza.

Às 18h, os corredores começam a registrar barulhos cada vez mais frequentes dos passos das pessoas saindo dos seus escritórios. A máquina de ruído branco, posicionada na antessala, dava as garantias necessárias para que ninguém de fora ouvisse o que se passava dentro da sala de terapia, mas a recíproca não era verdadeira. O forte bater das portas dos escritórios indicavam que existiam mais pessoas ali do que apenas Roberto e Paula naquele andar; O vento assoviava por entre o corredor do prédio e antessala. Paula, ainda tentando amenizar a situação, vira-se para onde estaria a cadeira de Roberto e fala “Acho que tem alguém lá fora… A luz apagou ou foi…” e Roberto a corta imediatamente “A luz acabou pela tempestade que está acontecendo lá fora” falando como se estivesse mais próximo dela agora, próximo ao ouvido. “Parece que desligaram a luz de propósito” – Paula exclama. Então, logo depois de se precipitar, ele retruca agressivamente “Está vendo como você liga fatos que não possuem ligação concreta entre si? Isso é mais um sintoma muito comum de quem é portador de Esquizofrenia Paranoide como você. Transforma qualquer coisa em perseguição.” E bate o pé no chão, seguida de mais uma suspirada. Diante disso, Paula se cala e não fala mais nada. O próximo som que comporia essa orquestra, seria o barulho do suave sentar-se de Roberto sobre a cadeira de couro – e mais um suspiro.

Ainda sem o ver, Paula tinha cada vez mais certeza de que teria que lutar fisicamente pela sua vida, no consultório onde foi para ser tratada. Mentalmente.

Capítulo 2

O silêncio que se instala, não trazia paz alguma. Com a boca seca como lixa e as têmporas enxarcadas, um filete congelante de suor descia pela sua medula e atingia o breve divisor das costas e o quadril, colando a blusa na pele.

Do lado de fora, o roncar da máquina de ruído branco parecia cada vez mais alto, engolindo boa parte dos sons que pudessem vir dos corredores junto ao tic-tac do relógio de parede. Pela sombra verde-escura projetada por sua pequena luminária, Paula observa roberto se encostar, ajeitar a gravata e der um leve capricho no cabelo. Pronto para retomar a sessão, após controlar os ânimos da sua paciente, ou melhor, cliente, como ele gostava de chamar. A ameaça dele era clara, não viria através do grito. Mas o que raios ele podia querer mais ali?

Com um tom manso e senil, Roberto começa a retomar a sessão aos poucos.

– Paula, o que aconteceu aqui hoje não pode simplesmente passar em branco. Seu comportamento é condizente com o seu diagnóstico e precisa começar a pensar em dar continuidade ao seu tratamento. Comigo. A ânsia gerada pela tempestade é gatilho ambiental comum na esquizofrenia. Sua desconfiança comigo, virou ideia persecutória. Não adianta fechar os olhos e os revirar, sua doença é grave e você precisa de ajuda. A minha ajuda

Em Paula, era nítido que não sabia no que acreditaria. Cada palavra dele era lustrada com verniz. Paula pensa “ele fala como se tudo isso fosse obra da minha cabeça. Mas que merda aconteceu com ele?” Cada palavra dele era calculada, mas a confiança de Paula começa a ruir. E ela o deixa sem resposta.

Ao passar dos minutos, os barulhos vindos do corredor começavam a aumentar, mas não eram mais as clássicas batidas de salto dos sapatos, mas dos funcionários do prédio. Ainda sem querer virar e olhar, nem muito menos perguntar, Paula começava a desconfiar que já passara há muito das 18h.

Ao ouvir o conversar do que pareciam ser duas moças da limpeza junto ao arrastar dos sacos de lixo, Paula pergunta:

– Tem alguém lá fora? – Falando baixinho e com pouca entonação. – Parece que a moça da limpeza está passando aí. Parece que estão parados na porta, esperando você liberar. Pede ajuda para elas.

– É só gente indo embora, na sua condição atual, os sons parecem mais ameaçadores do que eles realmente são. Tente se concentrar na nossa sessão. – Já sem paciência alguma.

Aos poucos, Paula parece começar a racionalizar o que acontecia ao seu redor. Se ela conseguia ouvir quem estava vindo de lá de fora, eles conseguiriam a ouvir, certo? Errado. A máquina de ruído branco, inicialmente colocada de maneira simples, parecia berrar e não tinha mais nada de “ruído”. Então, Paula raciocinava “Se eu gritar, não vou ter mais do que o risco de ele aparecer com um canivete na minha frente para tentar arrancar minhas cordas vocais. Ele vai inventar que eu surtei ou qualquer outra coisa parecida com isso”. Ainda pensando em soluções, ela exclama para ele:

– Essa máquina não está meio estranha não? Se ela era apenas para garantir a minha privacidade, não precisaria que EU a ouvisse, né? – Esperançosa de arrancar algo dele.

– Essa máquina existe para garantir o Artigo nono do código de ética profissional do psicólogo no Brasil. Contente-se com isso. Caso estivesse falando da sua vida e das suas questões, não estaria o ouvindo tão claramente – Pontuou Roberto.

– Você está com um nível de agitação muito alto! Não sei o que te aconteceu. Nunca agiu assim. Vou pegar algo para te ajudar. Fique aí – e se levantou ao som dos seus belos sapatos Oxford.

Ao abrir a gaveta bruscamente, Paula percebe um som que mistura um leve tilintar de metais com o plástico típicos das cartelas de comprimidos.

– O que você está procurando aí? Eu estou bem!  – Exclamou Paula.

– Não insulte a minha inteligência me dizendo que está bem. Não tente me fazer acreditar que você está bem, pois sei que não está. Fique quieta e aguarde o medicamento que estou preparando. Você vai tomar querendo ou não. É o meu dever.

Aproximando-se de Paula, ele oferece em um copinho plástico que parecia ser usado para tomar algum enxaguante bucal, um coquetel com três comprimidos.

– Tome Paula, aproveite que estou com boa vontade hoje e aceite estes medicamentos. Eles melhorarão suas alucinações você poderá finalizar a sessão de hoje e voltar para casa. Assim, continuamos na semana que vem.

Em um golpe firme e agressivo, Paula bate nas mãos de Roberto e derruba os medicamentos para longe de si.

– Enfie esses medicamentos no cu. Você quer me fazer acreditar que estou louca. Ou pior. Que SOU louca. Isso é inadmissível. O que você tá fazendo?

Roberto não reage. Não fala. Apenas dá pequenos passos na escuridão que estava a sala e fala quase que dentro do ouvido de Paula com a mão em seu ombro, sílaba por sílaba:

– Isso fazia parte do protocolo. Agora você vai precisar de mais do que apenas alguns comprimidos.

O toque dele enrijece seu corpo do dedo mindinho e arrepia até o último fio de cabelo. Se arrependimento matasse, Paula estaria em qualquer lugar agora, menos viva.

Capítulo 3

Roberto, como um bom fissurado por organização e limpeza, via os comprimidos jogados ao chão e os respingos do copo de água, todos arremessados por Paula, como uma afronta. Ou ele fazia algo para controlar a situação, ou a situação iria controlar ele.

Sem saber onde ele estava, Paula apenas ouve um barulho de cadeados metálicos. O caminhar de Roberto parecia cada vez mais perto dela com o arrastar das cordas no chão.

Sem compreender, mas sabendo que algo ruim estava por vir, Paula sente a adrenalina travar suas pernas.

Então, falando muito calmamente e como quem a tenta seduzir, Roberto diz:

– Você não me deixou escolha…

E um forte barulho das cordas passando por entre a cadeira e seu corpo começaram a aparecer. Gritando, Paula fala:

– ME SOLTA. MALUCO DO CARALHO. FILHO DE UMA PUTA. ME SOLTA PORRA.

E lutando cada vez mais contra o forte pulso de Roberto, não conseguiu nada e apenas aceitou que agora estava lá. Amarrada.

Com a voz rouca e a cara pálida, Paula já havia entendido muito bem o que estava acontecendo. Dentro da sua cabeça ou não, essa situação era horrorosa. Roberto até então era uma imagem de segurança, um profissional da saúde. Agora, parecia querer mais que a sua saúde, mas a sua vida.

Ao som da persistente tempestade, Paula ouve o tocar da campainha do consultório. Das duas uma, ou alguém ouviu sua gritaria de longe, ou poderia ser só mais uma alucinação.

– Dr. Roberto! Como vai o senhor? Quanto tempo que não te vejo. Desde que tirei férias do serviço. Como está o consultório? Precisando de alguma limpeza? Retirada de lixo? Deixe-me entrar – E já avançando para a antessala.

– Claudete! Quanto tempo – Prostado como uma barreira na antessala. Não preciso de nada, está tudo em ordem aqui no consultório.

– Eu insisto, Doutor. Vim aqui apenas para retirar o lixo, mas não me incomodo – E começou a se aproximar cada vez mais de Roberto e avançando pela antessala.

Enquanto isso, Paula se batia pela cadeira e tentava desesperadamente gritar por ajuda, mas sua voz rouca não a ajudou nem um pouco. Ao fundo, era possível ouvir uma tentativa de grito, mas nada muito elaborado.

– Não precisa, Claudete – ríspido e sério.

– Não se acanhe, Doutor. Vamos lá, me deixe entrar e dar uma geral na sua sala.

Prostado no mesmo lugar, ele empurra Claudete numa tentativa de afastá-la e de não demonstrar desespero. Se é que ele era capaz de sentir qualquer coisa parecida com isso.

– Doutor… que barulho é esse? Parece uma mulher gritando e batendo o salto no chão…. – Perguntou desconfiada.

– Estou assistindo um filmezinho depois do expediente. Nada demais. – Falou risonho.

-Ahhhh, então está bem. Até mais Doutor.

-Até, Claudete.

Roberto sabia que se não fizesse nada, poderia ter uma pista salgada a sua frente. Era preciso ensinar para aquela prostituta uma lição. Uma lição para que ela finalmente pudesse entender que não se deve desrespeitar, jamais, o ambiente terapêutico. E o seu terapeuta.

Gritando agressivamente e com a voz grave, Roberto fala:

– O que você acha que fez? O que está tentando fazer com você mesma? Eu já te disse. Você é uma esquizofrênica, doente. Uma prostituta que não passa de uma fodida para o resto dos seus dias.

Soluçando ao chorar, Paula não responde e apenas olha para baixo.

– Você não me deixa opção… – Falou Roberto, com pena.

Segurando-a pelo pescoço com o intuito de enforcá-la e soltar apenas no último minuto, Roberto aperta com a maior força que consegue. Enquanto a enforca com uma mão, a estapeia na cara com a outra. A força com que segura o pescoço de Paula é tamanha que suas unhas penetram mais que a pele e restos da carne dela restam próximas a sua cutícula.

Os olhos de Paula olham fixamente para o teto e nada mais que a luz amarela da sala de Roberto é notável. Perdendo a consciência e tentando encontrar boas memórias ao que parecia ser seu fim, ele a solta e uma maré de ar infla seus pulmões.

Ao finalizar o serviço de tortura, Roberto a olha recuperar a consciência pouco a pouco e ajeita a sua gravata e camisa. Passa a mão no cabelo com mais uma dose de gel capilar e se senta em sua cadeira de couro. Retomando o controle.

[20:00] durante o blecaute causado pela tempestade, a paciente começa a se debater na cadeira sem motivo aparente. Ainda agitada, ela começa a correr até a porta e gritar no corredor. Necessária contenção física breve para manter a sua integridade e do ambiente terapêutico. Paciente permanece agitada e com fortes ideias persecutórias.

Capítulo 4

Ainda presa por um número desconhecido de cordas, Paula sentia a dor escaldante das unhas fincadas de Roberto em seu pescoço. A dor era tanta que até engolir a própria saliva parecia um desafio à disfagia. Tonta e brutalmente nauseada, Paula olha para a sombra deixada por Roberto em sua bela luminária verde e dourada. Ajeitando a camisa e amarrando os sapatos, ela começa a entender que precisaria de mais do que palavras gentis para se livrar de seu algoz. A esperança? Um pequeno peso de papel prostado ao chão a poucos centímetros de seu pé.

– Dr. Roberto, o senhor poderia me fornecer um copo d’água? – em um tom manso e assumindo para ele a redenção que tanto aguardava.

– Vou buscar. – Ríspido e sério.

– Olha, eu sei que peguei pesado. Me desculpa, não queria ter chegado a esse ponto, mas entendo que a minha atitude não deixava opção. – Com um sorrisinho ao canto da boca e com a cabeça baixada.

– Eu sabia que você iria entender mais hora, menos hora. O maior problema de todos que chegam nesse consultório é a dificuldade de entender que eles possuem problemas que precisam ser tratados, que não adianta só fechar os olhos e esperar que tudo se resolva, ou que todo mundo irá te perdoar para sempre. Você é esquizofrênica e está passando por uma das crises mais severas que eu já vi. Você ficará bem. Aceite o meu tratamento e ficarás bem.

Enquanto Roberto levantava-se rumo a copa para buscar um copo de água para Paula – como recompensa ao bom comportamento – ela pairava sobre a cadeira e começava a testar todos os seus sentidos. Os pés se movem; os braços estão amarrados, mas podem se mover e a cabeça parece bem fincada ao pescoço. Para alcançar o belo peso de papel de ouro que Roberto deixou cair na disputa pela amarra de Paula, seriam necessários poucos mais que alguns milissegundos. O problema é que não há segundas chances. Se ela errar, está morta.

Enquanto isso, Roberto voltava da copa caminhando alegremente ciente de que seus esforços para conter a ira de Paula começaram a, finalmente, surtir efeito. Roberto, apesar de ser sempre meticuloso e obsessivo por detalhes, tinha deixado escapar de si um detalhe que faria toda a diferença mais tarde. A porta que separa a antessala do consultório estava meia aberta, desde a visita indesejada de Claudete, a faxineira do prédio. Fazendo com que sua máquina antirruído fosse estéril.

– Quem porra será uma hora dessas. Não é possível. – Exclamou Roberto deixando o copo em cima da bancada. – Fique quieta e não invente mais uma de suas gracinhas dessa vez.

Enquanto isso, Paula engolia a saliva e se preparava para uma das últimas chances que ela teria de se salvar. Ela se move com todas as forças que possuí, fazendo o máximo de barulho possível, até cair da cadeira no chão e derrubar a luminária de chão junto, gritando forte.

– SOCORRO, SOCORRO. ESTOU PRESA. AMARRADA. ME AJUDA

Assustado com o barulho produzido por ela, Roberto volta da antessala correndo e fecha a porta com a maior força que consegue e começa a caminhar rapidamente até Paula. Agora no chão e com pouca capacidade de reação para mais nada. Com apenas um pingo de força.

Segurando fortemente a cadeira na tentativa de imobilizá-la, Roberto tenta segurar a boca dela com o máximo de força possível, tentando calar ela e fazê-la parar de gritar por ajuda, mesmo sem saber quem estava do outro lado do corredor.

Com o pouco de ira que ainda lhe sobra, Paula morde e arranca cada pedaço que consegue do pescoço de Roberto. Com os caninos afiados, ela morde e finca seus dentes até inundar sua boca de sangue. Mesmo com o maior dos seus esforços, ela não conseguiu soltar seu braço e alcançar o peso de papel, e permaneceria com ele ali, anunciando seu destino por mais alguns minutos.

Anestesiado de tanta dor que sentia, Roberto tira os braços da cadeira muito ofegante e com muito sangue descendo por seu pescoço, e a deixa lá, amarrada, mas com a dor de um empate.

Com os dentes enxarcados de sangue e com o clássico olhar de loucura que há muito já lhe acompanhava, Paula sorri para a sombra que resta de Roberto e fala como se estivesse enfrentando o seu próprio pai.

– Você mexeu no quadro de luz no corredor. – Falou com muita calma Paula. – E eu vou mais longe, você fez a mesma coisa com a Natália. Aquela mesmo que sumiu do seu prontuário e você teme ouvir o nome até em sonho. A verdade, Dr. Roberto, é que o senhor não é mais que uma farsa. Sua fama de ajudar prostitutas que desejam sair da vida, não passa de um esquema muito bem amarrado para abusar de suas pacientes. Nos mantém amarradas e ensanguentadas até que você decida qual fim deseja nos dar. Atrás desse seu registro de psicólogo, existe um psicopata.

– Agora você deve estar desesperado para saber como eu sei de tudo isso, não é? – Suspirou forte e continuou. – Sabe quem me disse? As vozes da minha cabeça. As mesmas que o senhor tanto abomina e anota nesse prontuariozinho furreca seu.

Com o rosto rígido e as pupilas fortemente dilatadas, Dr. Roberto olha para Paula sem reação aparente. O homem que não esboça emoções, havia finalmente deixado escapar a primeira. A ira.

– Você está delirando. Além de tudo, isso que você pondere é crime. Crime de difamação.

Presa num misto de acusação e desabafo, Paula começa a proclamar palavras ainda mais fortes.

– Sabe como é a vida, né, doutor? — a voz de Paula sai rouca, mas firme. — Um dia a gente tá deitada em casa, lendo revista Capricho, pensando em quem vai ser o primeiro namoradinho, o primeiro beijo, o casamento, a vida depois dos dezoito. Pensando até em como vai ser contar que “perdeu a virgindade” pros nossos pais.

– Aí, um dia, quem entra no seu quarto não é namorado, nem amor, nem nada disso. É o homem que te colocou no mundo. O mesmo que paga as contas, que todo mundo diz que te protege. Ele entra, fecha a porta e faz o que bem entende com o teu corpo. E você entende, de uma vez só, que ninguém vai te proteger de homem nenhum.

– Então você tenta recuperar o controle. Decide que, se alguém vai encostar em você, pelo menos quem escolhe é você. Vai pra rua, pra esquina, pro quarto de motel barato. Aprende a cobrar, aprende a atuar, aprende a engolir nojo. Ganha dinheiro. Descobre que, sem estudo, é o único jeito de não passar fome. E cada nota que cai na sua mão vem com aquele recado escondido: você serve pra isso, pra ser usada.

– A gente se sente suja, usada e estragada mesmo, e o que faz? Vem para a terapia. Procura um profissional. Acredita que, dessa vez, algum homem vai ouvir sem pegar, sem mentir, sem aproveitar. E o que você faz, doutor? Quebra a confiança de novo. Tranca, amarra, tenta me calar. Vocês são uma raça difícil mesmo.

— Agora eu tô aqui, amarrada, sem saber o que você planeja pra mim. Só me resta ficar com os pensamentos. E torcer, por milagre, pra sair viva dessa sala. Após a forte batalha que os dois tiveram, podemos dizer que os dois tiveram um empate justo.

 Ofegante e ainda processando as fortes palavras de Paula, Roberto reclina sua confortável poltrona com um paninho rodeado de gelo no pescoço.

– Sabe, Paula. Não vamos chegar a lugar nenhum enquanto você não for sedada, de fato. Sua agressividade está muito além de qualquer limite que eu já experimentei. Vou buscar mais uma dose, igual a que você derrubou da outra vez, para você. Aceite. – Com um tom firme.

Já depois de pegar o coquetel de três comprimidos, Roberto agacha na frente de Paula e oferece para ela os remédios com um copo d’água em mãos. Ela recua um pouco o rosto, sabendo que assim que tomasse e dormisse, pudesse nunca mais acordar. Ela precisava reunir forças para um último ato.

[21:00] Confronto físico inevitável. Paciente avançou em direção à porta, derrubando vários objetos do consultório e tentando arrombar a porta de saída. Necessária contenção firme para evitar dano estrutural e autoagressão. Paciente proferiu acusações sem nexo sobre a minha conduta. Administrei medicamentos para estabilização. Situação controlada. Profissional mantém conduta ética e calma durante todo o episódio.

Capítulo 5

Agachado em frente a Paula com seu coquetel de comprimidos e uma dose de água, Roberto fita Paula com o olhar exausto, mas ainda aceso. Deixando claro que não iria se render tão cedo.

– Sem isso você não vai melhorar de jeito nenhum. – Falou Roberto manso e calmo. -E eu vou mais longe, talvez essa seja a única forma de você sair daqui hoje.

Isso não é cuidado, é apagar a única prova de tudo que aconteceu aqui hoje, que sou eu… Se eu dormir agora, só vai existir a versão dele. Ainda que ninguém vai acreditar numa puta mesmo, mas eu vou poder falar – Pensou Paula.

Com o copinho quase encostando na boca dela, Paula não reage intensivamente e convida Roberto a um debate aberto e franco sobre as opções que lhe restaram para aquela noite.

– Se eu tomar isso aí, quem garante que eu acordo? Ou ainda pior, que eu acordo lembrando de tudo que você fez? Você está tremendo, está sentindo a dor da mordida que te dei. No fundo, você precisa que isso acabe mais rápido do que eu. Guarde o seu coquetel e vamos finalizar isso de maneira civilizada. Eu não vou realizar o seu desejo de me controlar para sempre, mas vou te dar a chance de tentar catar outra idiota. Assim que sair por aquela porta, não te vejo mais e não denuncio.

– E, sabe de uma coisa, Doutor? Eu vejo em você um personagem que já lidei por muitos anos. Qualquer cafetão desses, do puteiro mais sujo ao mais elitizado, todos eles, se cagam de medo daquilo que não conseguem controlar. É o policial que vem pedir propina, a denúncia anônima de exploração sexual e até de trabalho escravo junto. Você já escolhe as prostitutas porque sabe que ninguém vai acreditar na gente. Sabe que a gente é resto na sociedade. Você apaga a luz porque precisa ser o único a enxergar – Disserta Paula calmamente.

– Eu sei que você fez parecido com a Natália. Muita coincidência, né? Ela que me indicou o senhor, falava super bem do seu trabalho e indicava para todas as meninas que falavam que estavam ruins da cabeça. Aí um belo dia, ela me diz que vem para a última consulta aos berros de felicidade e… nunca mais aparece? Nunca mais mandou notícia, a investigação da polícia não descobre nada e o senhor quer me dizer que isso tudo é coisa da minha cabeça? O senhor é um maluco. Você desligou o quadro de luz e você pode tranquilamente destrancar a corrente que me prende e finalizar essa história. Está com medo da denúncia? Do confronto físico? Você me superestima demais. Deixe-me ir e nunca mais terás notícia de mim.

Ensaiando uma risadinha cínica, Roberto começa a replicar Paula.

– Você está ficando maluca mesmo, a Natália veio aqui para sua última sessão e voltou tranquilamente para a casa dela. O que ela não te falou, mas me confessou, é que ia cessar o contato de uma vez com todos os clientes e amigas do ramo. Ia se desligar disso para sempre. Aí ela te corta da vida dela, e a culpa é do terapeuta? Por favor, arranje argumentos melhores.

– Isso que você está falando, é crime de difamação. Muito cuidado com as suas palavras pois você pode arruinar a carreira de uma pessoa para sempre – apertando o copinho até estrangular todo o seu plástico.

Testando cada centímetro da amarração feita por Roberto, Paula testa o punho direito e vê que consegue tirá-lo da armadilha feita pelo Doutor. Testa o punho esquerdo e não consegue movê-lo de forma alguma os pés estavam soltos e a mente ainda acordada. Com tantas brigas, as cordas começaram a ceder.

Quando ele se aproxima demasiadamente próximo ao seu rosto para tentar enfiar aqueles comprimidos goela abaixo novamente, Paula joga a cabeça para o lado e chuta o saco de Roberto com a força de quem depende daquilo para viver. Os comprimidos quicam pelo chão e a água respinga para tudo que é lado. Explodindo em dor e já completamente urinado, Roberto não consegue reagir e cai no chão, com a cabeça completamente exposta.

Com a oportunidade que ela esperava, Paula pega firme o peso de papel dourado com sua mão direta e desfere um golpe firme e retumbante em Roberto, que não apaga completamente. Respirando com muita força e completamente distante dos seus sentidos, ele se encosta na parece com a cabeça girando de tontura e com uma concussão para tratar.

Ao seu lado, Paula está com um punho solto e o outro preso, com o peso de papel em mãos e com a vantagem física a seu favor. Roberto sabia que seria impossível tentar qualquer tipo de reação contra Paula e que qualquer barulho poderia trazer ainda mais curiosos para o seu consultório. Roberto não era mais intocável, mas Paula ainda não estava completamente livre de risco.

– Nunca mais você dorme bem, estrume. – Falou Paula. – Você sabe muito bem o que fez.

– Ninguém vai acreditar em você. Você é uma puta, das mais ralés que existem, das que trabalham na esquina. Na ficha, você é só mais uma louca.

Encarando-se de forma assustadora e com o olhar de loucura que já domina os dois àquela altura, Roberto sentia medo pela primeira vez desde que abriu aquele consultório.

Epílogo

Relatório nº 07/1971 – Encerramento de caso

Serviço de Psiquiatria – Hospital São Gabriel

Paciente: Paula Fernandes do Nascimento

Idade: 36 anos

Profissional Encaminhador: Roberto V.M., psicólogo clínico, CRP 09/78426

1. Motivo do encaminhamento

Paciente do sexo feminino, com diagnóstico prévio de Esquizofrenia Paranoide F20.0, em acompanhamento ambulatorial há aproximadamente seis meses com o profissional acima referido. Encaminhada ao pronto-atendimento psiquiátrico em 16/01/1970, após episódio de agitação em consultório durante queda de energia ocasionada por tempestade.

2. Versão registrada pelo profissional

Segundo prontuário e relato do psicólogo Roberto V.M., a paciente apresentou súbita exacerbação de sintomas persecutórios durante a sessão, com verbalização de que estaria “presa” e de que o profissional “não a deixava sair”, tentativa de abrir a porta do consultório e gritar no corredor, bem como comportamento auto e heteroagressivo, exigindo contenção física breve. Refere ter administrado medicação ansiolítica oral para estabilização do quadro antes de acionar suporte externo.

3. Estado da paciente na admissão hospitalar

À chegada ao serviço, paciente encontrava-se consciente, orientada em tempo e espaço, porém ansiosa, com rouquidão importante, escoriações leves em punhos compatíveis com contenção mecânica e taquicardia. Durante toda a anamnese repetiu, em tom insistente, frases como: “ele mexeu no quadro de luz”, “ele desligou tudo”, “não foi crise, foi ele”, além de mencionar o nome “Natália” como suposta ex-paciente do mesmo profissional, sem dados objetivos que permitissem confirmar a informação no momento. Tais conteúdos foram classificados, em prontuário hospitalar, como ideias de referência e perseguição congruentes com o diagnóstico de base.

4. Avaliação subsequente e encaminhamentos

Diante da natureza do relato, foi encaminhada comunicação ao Conselho Regional de Psicologia para apuração ética. O profissional apresentou prontuários, folhas de evolução e termo de encaminhamento. Não foram identificadas, na documentação formal, incongruências diretas entre o relato do psicólogo e o registro escrito, à exceção de pequenas divergências de horário relativas ao término da sessão no dia 15/01/1970. Não houve outras denúncias formais contra o profissional até a presente data.

Em contato com administração do edifício onde se localiza o consultório, registrou-se que, na noite em questão, o quadro de luz do corredor do terceiro andar foi encontrado com um dos disjuntores gerais em posição desligada, sem identificação de autoria. Tal ocorrência foi atribuída, em relatório do condomínio, a “provável interferência manual ou oscilação decorrente da tempestade”, sem investigação adicional.

5. Situação atual

A paciente permaneceu internada por sete dias para estabilização medicamentosa, encontrando-se atualmente em acompanhamento ambulatorial com nova equipe, em outro serviço. Mantém, de forma intermitente, o relato de que “o terapeuta apagou a luz e trancou a porta”, sem outros elementos objetivos adicionais.

O processo ético instaurado em face do psicólogo Roberto V.M. foi arquivado por falta de provas materiais que sustentassem conduta incompatível com o código de ética profissional, prevalecendo a interpretação de que os eventos descritos se deram no contexto de crise psicótica aguda da paciente.

6. Observação final

Registra-se, para fins de completude, que tanto a paciente quanto o profissional referem, cada um a seu modo, que “apenas viram aquilo que a mente lhes permitiu ver” na noite da tempestade. Encerram-se os presentes autos.

Ass.:

Dr. ___________________________

CRM/CRP ____________

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