I like you in private

Sentado, comendo meia dúzia de Doritos com molho chilli numa tentativa de restaurante mexicano aqui no Brasil, ouço de um colega: “cara, tu te passas fácil por 35” — quando ele sabe que tenho bem menos. Não satisfeito com a estupidez, continua: “cara, você rodou sem óleo” — essa até eu ri, fique à vontade. Não me conhece mesmo. Não respondo aos insultos; no entanto, fito a chuva caindo e se esparramando pela janela do bar e como ela cai, molha, espera e segue seu ciclo gota por gota. Cada uma na sua função. Individual.

Assim são os amigos. Cada um vai ser seu amigo para um fim muito específico, admita. Caso te falhe a memória, vou refrescar algumas categorias comuns: o da festa; o que usa droga junto com você; o que você chama quando está prestes a reprovar em uma matéria — e esse último é, geralmente, o mesmo que você apresenta para sua mãe. O que você — mas eu sim — não conta é que os amigos são sempre dois: sozinho com você e no ente coletivo de outros amigos.

Já te deixo de antemão: a pessoa verdadeira se mostra sempre no segundo.

O amigo era tão legal, simpático, bacana e bem-humorado. Sempre com uma boa piada, ou só uma companhia silenciosa capaz de preencher agradavelmente o ambiente no cafezinho da tarde. Mas, quando essa entidade metafísica “grupo” adentra o ambiente, o amigo muda. Vira showman; quer ser o mais engraçado, chamar toda a atenção para si; ser sempre o mais inteligente — e até o Teeteto de Platão eu já ouvi nessa tentativa. Como sempre, nunca sou protagonista, mas um mero coadjuvante.

Ser o coadjuvante ainda é um papel que aceito. Mas existe um outro muito pior: o de réu num tribunal silencioso de vozes. Vamos lá, deixe-me mostrar.

Tomei duas caipirinhas e a bexiga de obeso já clamava por uma mijada bem dada. Sem pedir licença ou qualquer outra medida educacional, vou para o banheiro. Abro as persianas que o delimitam e dou de cara com duas poças que me deixam a dúvida entre a água da torneira e a urina que sai pela uretra.

Olho para o espelho e tenho mais uma daquelas reuniões que não marcamos com nós mesmos. Encaro minha solitária presença no banheiro, ouço o pingar da torneira e olho no fundo da minha pupila. Vejo que, lá no início da conversa, eu não ri verdadeiramente da piada. Ri para agradar, para me enturmar ou para não gerar um constrangimento logo de cara. Não achei graça; fiz o que fiz para agradar pessoas de quem tenho, hoje, repulsa. Não reconheci o meu amigo — e nem a mim. Foi ali, junto apenas de mim mesmo, que vi que não precisava de companhia. E que não queria mais estar ali. Mas por que raios eu me coloquei nessa situação?

Aliviei a bexiga, lavei as mãos — que fique claro — e segui de volta para o tribunal social. Mas, no fundo, era só uma mesa repleta de idiotas funcionais. Dei uma respirada forte, fiz o clássico gesto moderno de verificar o celular e tive o insight que me trouxe até aqui hoje.

Vi ali que eu não estava apenas incomodado com as péssimas piadas. Vi que eu queria ter ali o controle da narrativa; lucidez e validação emocional. Meu amigo passou longe de qualquer coisa próxima à simpatia, mas ainda é um bom amigo. Ainda o quero na minha vida. Não sei por quanto tempo.

Ao pagar a conta, a truculenta esposa desse meu amigo fez questão de pedir a conta ainda na minha frente para verificar se eu realmente tinha pago tudo o que havia consumido. Entrei no carro para sair do mexicano placebo um tanto reflexivo. Reflexivo pelo ambiente, pelo espelho, pela esposa inconveniente do meu amigo e por mim mesmo. Nunca te disse que sou santo, mas, ao menos, vigio meus sentimentos.

Ainda prefiro meu amigo em particular. Nunca tivemos um fio de problema.

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