Antes de qualquer coisa, leitor, eu preciso te dizer que isso aqui se trata de um relato póstumo. Estou morto. Não por escolha minha, mas por razões que você poderá concordar ou não no futuro. Se ler relatos de pessoas mortas te assusta, é melhor parar por aqui.
Eu comecei a falar com você por que precisava de um alento. Um alento a toda essa situação que estou passando, mas não sei como digerir. No momento, estou sentando no sofá da sala. Esburacado e sujo, ainda assim devo 3 ou 4 boletos dele para pagar. Com o olho próximo de deixar a primeira lágrima cair, vejo que o meu relógio está começando a parar. Estou adoecendo junto com a economia desse país. A televisão que comprei há apenas 2 anos já parece obsoleta e já tem uma linha horizontal na imagem. A geladeira da cozinha range e parece não conseguir mais resfriar alimento nenhum colocado ali. Ao lado dela, está a minha esposa, Maria. Um mulherão de 1,78 de altura, enfermeira do hospital de clínicas e uma dona de casa incomparável. Ela lava as louças que sujei no almoço. Ao mesmo tempo que tudo parecia normal…. as coisas pareciam ruir e experimentar uma nova realidade. Meu salário já chegava em casa velho, e os preços no mercado já amanheciam novos. O piso de cimento batido dessa casa, virou um grande poço de areia movediça, que me arrasta para dentro sem chance de escapar.
Estamos vivendo o que um velho seboso chamou no jornal de “hiperinflação”. Essa criatura faminta que se alimenta do pouco que nos resta, mudava o preço de qualquer coisa todos os dias. No mercado do seu Zé na esquina de casa, já vi o funcionário esperar eu pegar a etiqueta para a troca o preço do pão, da carne, nem se fala. Essa semana mesmo corri para comprar a mistura da semana e quando cheguei a fila já dobrava o quarteirão. Quando chegou a minha vez, já não havia mais nada. Voltei de mão vazia mesmo. A inflação é uma maré que sobe engole todo mundo que consegue. As contas vencem mais rápido do que eu consigo juntar uns miúdos para pagá-las. Diziam que não era o fim do mundo, mas cada dia parecia mais próximo do fim.
Eu preciso admitir que não tenho sido um marido exemplar ultimamente. Meu acordo com a Maria foi simples: eu trabalho para sustentar a casa e ela das crianças – que ainda queremos ter. Mas para ser sincero, estou mentindo muito para ela. Falo que o salário está sendo corrigido semanalmente e que dou conta de pagar tudo. Mas a realidade é que o nosso salário está atrasado há 3 meses e o pouco dinheiro que sobra já está chegando perto do fim. Meu chefe sumiu, meus colegas vivem situação igual ou pior que a minha, reclamar não encher minha barriga. O refúgio que encontrei foi o boteco perto de casa. Depois de um ou dois litros, já me sinto bêbado o suficiente para não precisar mais pensar na minha situação. Jogo três partidas de sinuca e volto para casa. Durmo e repito o ciclo. Até o dia que a minha esposa não aguentar mais.
A bebida e o jogo pouco a pouco foram se tornando meus maiores companheiros: conseguia parar de pensar na minha situação ao mesmo tempo que apostava os poucos trocados que tinha na esperança de que eles se multiplicassem e eu conseguisse melhorar a situação em casa. Aqueles goles gelados e amargos de cerveja viraram a minha musa. Era ali que não me sentia mais fracassado, menos invisível e um pouco valorizado. O cheiro ácido do álcool impregnava minhas narinas e o barulho das cartas sendo embaralhadas já me arrepiam. Entre um gole e outro, a inflação continuava subindo, mas eu ficava cada vez mais barato.
Minha esposa era em casa tudo que eu não conseguia ser naqueles dias: prática, organizada, e com os pés no chão. O avental manchado de gordura e o cabelo preso por amarrar mostravam que já havia deixado a vaidade de lado há muito tempo; as mãos rachadas pelo sabão, sabiam de cor o preço do arroz, o dia do vencimento da conta de luz, cada milímetro da sobrevivência doméstica. Com um caderninho fino e amarelado pelo tempo na gaveta, ela anotava cada cruzeiro que entrava e cada cruzeiro que saia. Naquela noite, comíamos em um silêncio catedral e ela finalmente perguntou sem fazer cerimônia:
– Quanto sobrou do salário esse mês?
Olhei vagarosamente para meu prato enquanto mexia no arroz com tristeza e respondi:
– Sobrou só um pouco… Quase nada.
Nenhum de nós tocou mais no assunto, mas o seu olhar de reprovação atravessou os meus olhos como uma espada. Ela não queria acreditar no que havia falado, mesmo assim suspirou e continuou a comer sua comida calada, num silêncio mais duro que qualquer sermão. Com uma materialidade que não consigo descrever. Havia ali uma decepção que me fez encolher. Naquele momento, tive a certeza de que ela não me olhava mais como marido, mas como um filho problemático, pela primeira vez.
Eu tentava me consolar justificando o injustificável. Ficava no antigo dilema do curto contra o longo prazo e amargamente refletia: com o dinheiro virando fumaça de qualquer forma, que diferença fazia queimar um pouco mais e me sentir melhor? Que mal faria tentar aliviar essa sensação de merda que corre da minha boca ao estômago? Enquanto eu passava o dia inteiro lutando contra esses pensamentos tortos, minha esposa observava tudo em silêncio; refazendo contas, anotando números e riscando gastos desnecessários. Tudo para fechar o mês em um silêncio que pesava mais que qualquer grito desesperado. No fundo, eu percebia que estava arrancando pedaços da nossa família a cada gole, a cada aposta. Mas empurrava essa culpa para o fundo da garganta com mais um trago de cerveja e outra rodada de cartas. Meu mal não tinha começado com a inflação – mas era a inflação que me dá a desculpa perfeita para não lutar contra ele. Eu dizia que o país estava arrastando seus cidadãos para a beira do precipício, mas tinha sido eu mesmo que havia caminhado e parado na beira com a ponta dos pés. Sozinho.
A gota d’água veio num impulso de sexta-feira, dia de pagamento. Naquela semana eu tinha separado o dinheiro para uma conta que não podia deixar atrasar: a prestação do apartamento. Ela precisava ser quitada antes do fim do mês, ou teríamos que lidar com multas que crescem como uma bola de neve ou até mesmo com um possível despejo. Mas, ao sair do trabalho com o bolso cheio de alguns cruzeiros brilhando e cheirando a novos, voltei a ter os pensamentos intrusivos contra tanto lutava: eu mereço relaxar um pouco – pensei. Convenci a mim mesmo de que, se tivesse um pouco mais de sorte no baralho, poderia até voltar com mais do que levei. Um acordo que não tinha como dar errado. Só mais uma rodada – repetia para mim. E mais uma, e outra; e quando dei por mim, o maço de notas que cheguei, já havia desaparecido e havia se transformado em alguns trocados nas minhas mãos suadas e trêmulas de quem sabia o problema que havia criado. Amanhã eu recupero – pensava em negação. Mas eu tinha plena noção da mentira que contava a mim mesmo. Quando cheguei em casa de madrugada, o dinheiro que havia sobrado já não pagaria nem a mistura do almoço. No dia seguinte tudo seria corrigido pela inflação e a dívida engordaria como um banqueiro seboso em sua cadeira de couro. Foi quando percebi que o dinheiro tinha melhor chance de sobrevivência longe do que perto de mim.
Na manhã seguinte, o inevitável banquete de consequências veio à tona. Encontrei minha esposa sentada na mesa da cozinha, os olhos vermelhos de uma noite mal dormida e o caderninho de contas aberto à sua frente. As notas amassadas que restaram da noite anterior repousavam em cima da mesa.
– Onde está o resto do dinheiro? – Ela me perguntou com uma voz assombrosamente calma
Senti um gosto ácido descendo pela boca
– Então… Eu perdi um pouco. Mas fica tranquila que vou conseguir de volta, eu prometo.
Ela fechou os olhos por um instante, respirando fundo, segurando o vulcão que estava prestes a explodir em sua cabeça quando tornou a falar, baixinho e cortante:
– Você quer acabar com tudo, não quer?
– Claro que não! – rebati na esperança de acalmar a situação, mas erguendo as mãos como um criminoso detido pela polícia – A culpa é desse maldito governo, dessa porcaria de inflação… Eu sou tão vítima quanto você!
– Vítima? – Ela retrucou, incrédula e com um olhar de desprezo que assustaria até a mais inocente das crianças – Não, você não é vítima. Você é cúmplice.
Não encontrei resposta. Eu vi ali que era um demônio em atividade, incapaz de argumentar contra a verdade dita pela minha própria esposa. Por dentro, contudo, algo ainda se agarrava à velha desculpa: o sistema, meu emprego, a inflação. Mas até isso começava a soar vazio e distante, eu sabia que o buraco era muito mais embaixo. Minha esposa se levantou da mesa deixando um pão pela metade e o café frio na mesa e expeliu: – Se você não parar, alguém vai ter que parar você.
Depois que ela se foi, suas palavras continuaram ecoando pelas paredes da casa, como um presságio sombrio e cheio de culpa.
A partir daí, iniciou-se uma contagem regressiva deveras silenciosa. A prestação do apartamento que deixei de pagar virou uma bomba-relógio. Em poucos dias, os juros e a correção inflacionária triplicariam a dívida. O que já era difícil, entrou em modo impossível e não me restava nada a fazer que não fosse esperar pelo mês que vem. A partir daí, um cobrador filho da puta do banco começou a ligar para o telefone de casa diariamente, esperando que eu tivesse alguma boa notícia para dar. Até o síndico que sabia de tudo começou a fazer ameaças passivo-agressivas todas as vezes que o encontrávamos (diariamente). O mundo externo começava a mostrar suas garras e a cada batida de porta, toque de telefone ou o simples olhar do síndico já fazem meu coração palpitar. Minha esposa, porém, reagia de uma maneira que eu não conseguia entender; aquele lado da personalidade dela eu não conhecia. Ao invés de discutir calorosamente ou até chorar, ela está ficando cada dia mais fria e metódica. Arrumava a casa em silêncio, de um jeito quase mecânico, riscando tarefas numa lista que não tive coragem de perguntar o que continha. Falava comigo apenas o essencial e sua voz vinha sem qualquer tonalidade, como se já estivesse falando com um estranho. Às vezes, a via sentada à mesa com papéis espalhados dentre recibos, contas e anotação, fazendo cálculos que ela escondia assim que eu entrava. A sensação era de que algo estava acontecendo sob a superfície do meu casamento sem o meu saber. Novamente, preferi me iludir e achar que era apenas cansaço da parte dela e que no futuro breve, tudo melhoraria. Mas, a verdade mesmo era que ela estava se desligando da nossa realidade. Um fio de cada vez.
Com o passar dos dias, a minha desconfiança sobre o nosso casamento só aumentava e parecia ter vida própria. Eu comecei a “ver demais”, começava a enxergar sinais mesmo onde não havia nada. Peguei minha esposa cochichando no telefone, e quando entrei na sala, ela desligou o mesmo abruptamente, como se quem estava do outro lado da linha já estivesse a par dessa possível situação. Ficou em minha mente também quando entrei no nosso quarto e a vi guardando uma série de anotações que não pareciam as mesmas do caderno de contas; quando ela me viu, guardou apressadamente no fundo de algumas roupas do armário. Uma tarde, encontrei um número de telefone anotado num papel sobre a mesa, com um nome que eu não conhecia de lugar algum; segundos depois, ela surgiu e puxou o papel abruptamente da minha mão. Perguntei o porquê dessa agressividade e a resposta não pode ser escrita em letras. Um silencia sepulcral. Comecei a pensar em um universo de cenários: será que ela estava me traindo? Traição não combinava com ela, mas e se o desespero de toda a situação a tivesse feito mudar de ideia? Ao mesmo tempo, minha culpa me fazia duvidar da minha própria sanidade e capacidade de análise: talvez nada daquilo fosse tão grave; talvez fosse a minha necessidade de projetar sobre ela a minha própria sujeira. Eu me sentia como um rato em um gatil. Logo seria apanhado por algum dos meus predadores. Eu só não sabia se a minha esposa era um desses gatos, ou se estava projetando um uma ratoeira personalizada para mim.
Certa manhã acordei com a pior ressaca que já tive na minha vida. A cabeça latejava como se houvesse um martelo balançando dentro dela, minha boca seca tinha gosto de vinho plástico e o cheiro de álcool estava impregnado na minha pele. Minhas mãos tremiam enquanto tentava segurar uma caneta para trabalhar. Eu passei a tentar trazer um pouco do trabalho para dentro de casa. Sabia que não poderia aparecer no jornal do jeito que estava. Se eu conseguisse escrever uma ou duas matérias, talvez conseguisse garantir alguns trocados. Mas, diante da mesa, não consegui nada além de alguns pedaços de papel amassados, quase em branco. Nenhum número fechava, nem uma palavra conseguia ter nexo com a outra. A verdade, é que eu não servia mais como provedor, como marido, nem mesmo como o profissional que eu lutei tanto para me tornar. Chegamos ao ponto de não ter um troco nem mesmo para o ônibus; eu faltava o trabalho com desculpas pois nem sequer conseguia chegar lá. O isolamento era total. Dentro de casa, eu era um peso morto – e já sabia disso. Na rua, só mais um cadáver devendo prestações como tantos outros. Eu já não aguentava mais o fardo de viver.
Sem muitas alternativas mais, passei a observar minha mulher em silêncio, tentando decifrar quem era aquela pessoa que estava ao meu lado todos esses anos. Os movimentos eram medidos, a expressão fácil era impassível. Não era paz o que ela exalava, e sim uma fria determinação. Como um general logo antes de ordenar uma ação de guerra. De vez em quando, ela deixava escapar algumas frases no mínimo enigmáticas: “A gente ainda vai dar um jeito”; “Pior do que está não fica” e a mais sombria, sem dúvida “uma hora a conta chega”. Foi aí que me dei conta que para ela, eu havia me tornado um fator de risco. Um risco maior que qualquer inflação que pudesse estar acontecendo lá fora. No início, tentei me convencer de que era exagero meu, que eu estava ficando paranoico. Mas, a lógica sussurrava contra mim: sem mim, quanto ela teria no banco hoje? Menos uma boca para alimentar, menos dívidas para cobrir… Talvez até houvesse aquele seguro de vida do meu emprego que a manteria por algum tempo. Esses pensamentos me arrepiaram e gelei por um momento. Não sei em que momento exato eu deixei de ser marido para virar apenas um número frio na sua planilha.
Alguns dias depois de ter essa estranha sensação, um momento em nossa cozinha arrepiou meus pelos. Achei que seria uma boa ideia entrar de fininho na cozinha, sem fazer barulho e a encontrei de costas para a porta afiando a bela faca que ganhamos de presente de casamento. Aquela lâmina deslizava de um lado para o outro, orquestrando um chiado rítmico. Por um momento, considerei dar meia-volta sem que ela notasse a minha ausente presença, mas o rangido do piso não permitiu e denunciou meus passos. Ela se virou lentamente para mim, ainda com a faca em mãos. Havia naquele rosto uma serenidade que eu nunca vi na minha vida.
– A janta vai ser especial hoje? – tentei brincar, mas minha voz saiu tão falha que não deu pra esconder o medo
Ela não sorriu. Ao invés disso, olhou para a lâmina e depois para mim e cochichou:
– Tem coisa que a gente precisa fazer… pelo bem de quem fica.
Senti um arrepio descendo pela minha espinha. O que ela quis dizer, exatamente? Antes que eu respondesse qualquer coisa, ela pousou a faca na pia com cuidado exagerado e saiu da cozinha sem falar mais uma palavra sequer. Fiquei ali, com o coração palpitando, tentando recuperar o fôlego. A lâmina refletiu a luz da cozinha, fininha, límpida e traiçoeira. O preço da gasolina parecia brincadeira.
Foi naquela noite mesmo que uma calmaria estranha me tocou. Admiti para mim mesmo o que já vinha negando há vários anos: Minha esposa sempre estivera certa sobre o meu vício. Lembrei de cada um dos incontáveis avisos que ela me dera e que joguei fora como papel amassado: “hoje é só essa vez”, o famoso “eu paro quando quiser” ou até o “quando o país melhorar, eu melhoro junto”. Todas aquelas promessas vazias como o vento soavam de maneira patética em minha mente. Nosso casamento já havia ido para os ares antes mesmo de a hiperinflação estourar; a crise catalisou um movimento que já iria ocorrer de uma forma ou de outra. Talvez eu realmente merecesse o que seja que estivesse por vir. Essa ideia não me desespera, mas uma aceitação da casada derrota. A vida já parecia sola de sapato gasta, como um adesivo velho que já perdeu a cola mesmo.
Com uma lucidez enorme em seus olhos, minha esposa me sugeriu que eu não saísse essa noite de sexta – Fica em casa hoje. Vamos jantar juntos, como antes. Vai ver melhora nosso casamento – Ela propôs, com um sorriso que não via há muitos meses. Surpreso com tudo que estava acontecendo, assenti. Ela fez o meu prato favorito – pork ribs!, e ainda acendeu uma vela velha e cansada, mas muito romântica. Durante a refeição, conversou sobre coisas banais, como um casal comum falando no dia a dia. Eu mal acreditava naquela trégua. Quando terminamos de comer, ela trouxe uma garrafa de conhaque que meu pai nos dera anos atrás mesmo, uma antiguidade! Era tudo muito estranho porque ela odiava que eu bebesse, mas ela mesmo empurrou o copo até a minha mão.
– Você merece sossegar um pouco – disse, com os olhos baixos enquanto erguia o copo.
Observei o líquido âmbar refletindo a chama da vela. Havia um estranho aroma adocicado incomum na bebida, mas atribuí à marca ou ao tempo que estava guardada a garrafa. Meu coração batia rápido demais e as mãos suavam sem parar, mas ergui o copo junto ao dela. Brindamos no mais puro silêncio. Eu bebi. E quando o líquido desceu queimando na minha garganta, tive certeza de que ali não era só álcool.
Senti um forte gosto amargo e metálico explodindo na minha boca. O copo escorregava dos meus dedos e se espatifava no chão. O som de vidro quebrando parece distante, abafado demais. Meu peito estava incendiando; uma queimação sobe pela garganta e começo a tossir estranhamente rápido, tentando puxar o ar que de repente para de entrar. Minha mãos correm ao pescoço enquanto tento correr de forma cambaleante. O mundo girando na minha cabeça e as pernas fracas e bambas me faziam pensar que iria desabar a qualquer momento. Tento a chamar pelo nome, mas não consigo emitir som algum mais. Um zumbido alto invade meus ouvidos e minha visão começa a borrar pelas laterais. O coração palpitante parecia fazer cada batido uma punhalada. Meu deus. Isso está realmente acontecendo? Estou caindo de joelhos. As mãos dela surgem na minha mente, firmes, empurrando meus ombros para o chão enquanto tenta me erguer. Eu entendi, muito tardiamente, que não era mais um episódio no nosso casamento, mas o fim da temporada.
Meus olhos já não conseguiam focar, mas pude vê-la ajoelhada ao meu lado. Nenhum sinal de horror em seu rosto – apenas uma solução calma quase terna. Os olhos dela estavam secos, observando meu sufoco como quem assiste um filme de verão. Talvez até houvesse um leve sorriso de alívio em seu olhar. Foi ali que compreendi, no meu último lampejo de lucidez: a inflação sempre foi minha melhor desculpa. Meu plano de fundo. Eu cavei a minha própria cova com cada escolha podre que realizei. Não foi esse país que me matou, fui eu. Ela apertou o gatilho da arma que coloquei na minha garganta durante todo esse tempo. Eu sua mente, eu suspeito, ela nem achava que estava cometendo um crime – acreditava eu fechava um vazamento como um encanador. A loucura dela alimentada pela minha resultou em um vulcão erosivo.
No final das luzes, memórias aleatórias começavam a vir na minha mente: meu pai colocando moedas contadas em cima da mesa na minha infância; eu e ela assinando nossos papéis de casamento no cartório cheios de jovialidade e esperança; eu queria esconder a agonia que tinha pelo dinheiro na bebida, no jogo. O que eu não percebi foi que pouco a pouco eu virei o maior custo a ser cortado dessa planilha. Agora, a história termina aqui, comigo. O país seguirá seu rumo, minha esposa arrumará outro esposo e meu filho um novo pai. E eu? Termino minha trajetória deitado nesse sofá de mármore.