Ela entrava por entre a janela e a cortina. Entrava vagarosamente, como quem pede licença. Sabia que a sua presença era indesejada, mas necessária. Sabia que precisava pedir para entrar, mas que entraria de qualquer forma. Deitado na cama, Jorge sentia esse raio de luz que tentava te penetrar. Sentia aquele pequeno fio de calor e meneava a cabeça, permitindo entrar. Estava na cama. Dormia, mas não descansava. As noites eram pesadelos. Os finais de semana, contos de terror. Deitado, com os olhos abertos antes do despertador tocar, sentia o vazio penetrar a sua mente. Era a coisa.
A coisa entrava pelo seu pensamento diariamente. Não conseguia entender. Terminara a faculdade, mas não conseguia trabalho. Moraria sozinho sabe deus até quando. O silêncio circundava a casa em que vivia. Era uma solidão intensa e difícil de conviver. O celular não tinha uma notificação sequer há meses. O vento passava pela pequena e aconchegante casa assobiando pelas janelas, anunciando sua chegada.
O pouco contato que tinha, era restrito a sua mãe. A coitada tentava amenizar a situação. Mas não conseguia…
- Filho, como estão as coisas por aí? Te liguei essa semana inteira, mas você não me atendeu… Sequer retornou. Sabe, fico preocupado com você. Morando tão longe de mim, não sei o que está acontecendo, mas sei que não está bem… Já comeu hoje?
- Já.
- Tá bom filho. Promete pra sua mãe que você vai atender ela semana que vem?
- Prometo.
Sua vida amorosa era ínfima. No auge dos seus picos de testosterona, jovem e bem fisicamente, esperava conseguir uma posição melhor na disputa sexual. Havia beijado na boca uma única vez. Uma garota que conseguiu quebrar a corrente que colocara sob relacionamentos e guardara em um baú. Se apaixonou por ela. Ninguém lhe dera atenção até aquele momento. Não teve a oportunidade de mostrar o homem que poderia ser.. Então na primeira oportunidade que teve, se jogou. Uma pena que direto numa fossa cavada e desenhada para ele. Jorge entrava lentamente em uma depressão profunda a qual teria dificuldade de sair. A moça que o beijou? Sumiu do dia para noite… Pobre homem
- Amor, fala comigo. Por que você sumiu assim… Da noite para o dia. Vamos conversar. Mesmo que não queira mais ficar comigo, mas vamos dar um fechamento emocional nisso…
- Não me procure mais. Não me siga mais pela universidade. Se você fizer isso novamente, vou te denunciar para a segurança interna.
Era o terreno perfeito para a coisa penetrar e se manter lá até que uma nova maldade fosse instaurada. A ansiedade que o acompanhava não permitia que ele parasse de pensar no assunto um minuto sequer. Ruminava pensamentos negativos dias e noites sobre momentos passados, conversas, mensagens, viagens. Pobre Jorge… Seu único contato diário com o mundo exterior, era na padaria que tomava café da manhã todos os dias.
- Bom dia, jovem! Vai querer o que hoje?
- Se não tiver nenhuma novidade, o de sempre.
- Não tem mesmo, vou empacotar pro senhor.
Ao fundo, um casal de amigos conversava sobre relacionamentos. O assunto o perseguia:
- Ah, amiga, me sinto bem já com relação ao meu último relacionamento. Sabe como é né? A dor de um amor, se cura com outro amor…
“A dor de um amor, se cura com outro amor”. Uma frase dotada de pragmatismo, objetividade e solução. Esse pensamento entrou pela sua cabeça de maneira retumbante. Passava o dia ruminando: “preciso encontrar um novo amor”. Assim, estarei livre da coisa. Estarei, enfim, liberto e longe dela. Serei eu novamente.
À tarde, contava as repetições na academia como quem conta o passar dos dias: doze; doze; doze. O cronômetro da esteira parou em oito e lá ficou travada. Ele desce e coloca o moletom de volta. Em casa, abre seu livro favorito pela terceira vez. Lê, mas não consegue absorver nada. As palavras passam em vão pela sua perturbada mente. Às vezes, se lembrava do seu único beijo. Da triste resposta que recebeu da moça. A lia tantas vezes que as letras deixavam de ser simples contornos para se tornarem densos blocos escuros.
No cantar da noite, a coisa passa do sofá para o pé da cama. Lá está Jorge rolando a tela infinitamente, esperando o sono chegar. Nisso, digita na internet: “como conhecer pessoas novas sem sair de casa”.
A solução perfeita para a sua vida parecia estar lá. Mudou a forma como se conhece pessoas. E Jorge achou, enfim, um local para entrar. Entrou num site, depois no outro, digitou seu e-mail e depois baixou um aplicativo. Aspecto minimalista e cores vibrantes: um aplicativo que prometia ter pessoas e nenhum cheiro por perto.
O começo era simples. Bastava criar um perfil: adicionar 3 fotos, uma descrição breve e começar a rolar de um lado para o outro as opções que apareciam. Começou a escrever a descrição três vezes e apagou todas as três. Ao fim, a simplicidade ganhou espaço: “gosto de café e de livros” Simples demais para atrair algo perigoso . Estava deslumbrado, a primeira foto que apareceu? Uma indonesa. A segunda, uma chinesa. A terceira, uma colombiana. Se por um lado o agradava todas as amenidades, era nítido o desprezo que os aplicativos faziam pelos seres humanos, o transformando em petiscos em um cardápio gigantesco.
Ao longo desse período, sua mãe mandou um áudio:
- Filho, saiu hoje? Vai aproveitar a sexta.
- Não, vou ficar por casa – sem ao menos ouvir o aúdio
- Comeu?
- Sim – mas sua última refeição havia sido o café da manhã.
Depois de alguns deslizes para lá e outros para cá no aplicativo, deixou o mesmo um pouco de canto e deixou que o abajur triangulasse a sua cama. Apesar de não ser um exímio encantador, tinha a expectativa de que algo sairia dessa investida amorosa. Foi dormir com essa expectativa.
Às 2:35 da madrugada, o celular vibra e acende a tela com uma notificação. O localizador? Número 63.
quem será que me manda mensagem uma hora dessas da madrugada. Ainda mais desse discador internacional?
Não aguentou e precisou verificar. Na foto, uma bela moça de cabelos lisos, olho verde-claro e um rosto oval bem delineado. O ventilador de teto girava sem balançar a cortina. O relógio de fundo, marcava 3h21. A mensagem, muito simplista
- Oi.
- Onde você está? – Jorge escreveu
- Manila – Capital das Filipinas
A resposta apareceu antes mesmo de enviar a mensagem. Coincidência? Internet rápida? Jorge chamaria isso de conexão. Sorriu de leve, franziu a testa com vergonha do susto que tomou.
- Que horas são aí?
- 3h21. Muito bom mesmo.
As palavras, vieram dessa forma. Ele passou para a segunda foto no perfil da moça. A cortina tinha a mesma dobra e o relógio marcava a mesma hora. 3h21.
- Você trabalha com o quê? Jorge perguntou
- Cuido de corpos 🙂
A frieza pela qual essas palavras vieram fizeram toda a diferença. Quem fala dessa maneira sobre a sua profissão? Massagista, coveira, médica? Todas essas foram suposições que Jorge tomou ao longo da conversa. A coisa se aproximou. Deu um passo para frente e observava delicadamente os passos tomados nessa conversa.
- Qual o seu nome – Jorge insistiu
- Nathalie. E o seu?
- Jorge.
A madrugada caia e a conversa esquentava. Apesar de não a ver ao vivo, acreditava piamente em tudo que ela escrevia.
- Com o que você trabalha? Perguntou Nathalie
- Sou professor de redação numa escola primária – Jorge não sabia o que responder. Não queria falar que estava desempregado e mostrar fraqueza.
- Muito bom mesmo.
- E você, falou que trabalha com corpos, mas como isso funciona?
- Eu preparo os corpos que estão em processo de limpeza para doação de órgãos. Um hospital metropolitano aqui em Manila que faz isso para o país inteiro.
- Nossa, que legal. Por aqui não tem nada de muito emocionante. Preparou aulas, corrijo redações e lido com pirralhos do ensino fundamental. Não gosto muito do que faço, mas paga as contas.
- Hmmm.
- O que está procurando aqui no site?
- Cansei de tantos homens que só queriam me comer. Sua descrição, breve e sincera me trouxe até aqui. Café e livros. Talvez seja disso que eu preciso para ser feliz. E você?
Como assim eu? Como falar que estou aqui porque não consigo falar com pessoas fisicamente?
- Ah, eu vim pra cá porque estava chateado com as moças que encontrava por aqui na cidade. Sabe quando ninguém é interessante? Todo mundo parece igual? Eu quero conhecer pessoas novas e interessantes. Sua descrição “um olho de vidro e muitas histórias” foi tudo que eu precisava ler.
Às vezes, ela errava a gramática no mesmo lugar. Aquele mesmo erro que deixava um lastro em Jorge como uma marca d’água num livro.
- Preciso ir dormir. Está tarde por aqui.
- Muito bom mesmo.
Jorge havia mentido e não teria ido dormir. Há muito tempo que não sabia o que era isso. Na verdade, acendeu o abajur novamente e encarou a rachadura presente no chão do seu quarto.
É a primeira vez que alguém está me dando atenção. Talvez ela realmente se importe comigo. Eu mereço isso. Preciso de atenção e carinho.
Deitou com esses pensamentos. Nos dias que se seguiram, conversavam seguidamente. O fuso horário não ajudava, 11h de diferença separaram os relógios entre o Brasil e as Filipinas. Mas isso não era um problema. Sempre que acordava, o primeiro pensamento era se a sua amásia havia deixado alguma mensagem e sempre tinha um “bom dia” seco, mas dotado de atenção.
Em um dia comum, foi na padaria pela manhã e estava bem pouco movimentada. Até estranho.
- Bom dia, Jorge! O que será para hoje?
- O de sempre meu querido – com um belo e atípico sorriso de orelha a orelha.
- Que felicidade seu Jorge. Fico feliz de te ver assim. Me conta, o que rolou?
- Olha, conheci uma pessoa nova. Uma mulher que me valoriza.
- Sério mesmo? Está te fazendo bem. Qual o nome dela?
- Nathalie.
- Nathalie? Nunca ouvi falar dessa pessoa por aqui…
- Ela não é brasileira, não. É lá das Filipinas. Conheci na internet.
- Ahhh. Tá bom então…
O tom de desconfiança do padeiro foi interpretado por Jorge como desconhecimento da modernidade. Não era de se esperar que o coitado conhecesse tanto sobre como se conhecesse pessoas atualmente, né?
Os dias pareciam mais claros, mais vistosos. Depois desse acontecimento em sua vida, Jorge passava a ter uma rotina mais adequada. Começou a dormir melhor, conversar melhor, sorrir mais e chorar menos. A vida tinha ganhado muito mais sentido. Não se sentia mais um estranho, mas alguém merecedor das melhores coisas. Nathalie, mostrava reciprocidade e tudo parecia caminhar bem.
Em uma das longas conversas que tinham, ela fala:
- Queria muito te ver pessoalmente. Já faz tempo que conversamos, mas não te conheço. Ligações por videochamada não me satisfazem. Quero te ver pela primeira vez ao vivo. Sem cortes ou edições.
- Sério mesmo…? Penso sobre isso todos os dias. Quero muito poder te ver. Te amo.
- Te amo. Muito bom mesmo. Quando pode vir? O final do ano está chegando e você poderia ser meu presente de natal…
Jorge agora não tinha olhos para mais nada. O pedido de sua amásia não era uma mera sugestão. Soava para ele como uma grande obrigação. Tinha que conhecer sua amásia. Tinha que a ver. Só de pensar, ficava excitado e extasiado. Uma maré de dopamina lavava seu cérebro.
Sua mãe liga e se surpreende:
- Oi Filho. Como você tá? Finalmente me atendeu…
- Oi mãe. Estou bem. E você? Tudo vai bem por aqui… A senhora não vai acreditar. Acho que estava certo todo esse tempo… Realmente apareceu alguém legal na minha vida…
- Sério??? Que bacana. Tá vendo? A vida precisa de paciência e você quer tudo para ontem. Qual o nome dela? Manda foto.
- Nathalie mãe – Ele pensou em mandar a foto. Mas a cortina amassada e o relógio parado em 3h21 poderia assustar a coitada.
- Que legal meu filho… E que nome diferente. Onde você conheceu ela?
- Ah mãe. Nem sempre o que a gente precisa está próximo da gente.
- Como assim, filho?
- Ah, conheci ela em um aplicativo de relacionamento. Ela é das Filipinas. Da capital, Manila.
- Ah sim… entendi. Filho, a chaleira tá apitando, ligo já para você.
- Tá bem mãe. Beijo e te amo.
Planejar essa viagem era sua maior obrigação. A passagem de ida para Manila estava na casa dos 8k reais. Uma bagatela que Jorge não tinha. Afinal, o emprego que dissera ter era muito mais para convencer a si mesmo que seria um bom pretendente, que uma realidade latente. Para cumprir com o desejo de sua amásia e seguir com o plano, tomou um empréstimo. Pensando nas despesas, preferiu pegar logo 15k reais. O suficiente para ir e voltar e aproveitar um pouco por lá…
- Amor, comprei a passagem. Vou daqui a duas semanas te ver…
- Muito bom mesmo.
A cada mensagem que ele trocava com sua amásia, a coisa se movia de lugar. Se antes estava sempre dentro dele, agora, parece apenas o acompanhar. Presença sem peso. Saía do travesseiro para a padaria, da padaria para a academia e estava sempre de olho nas mensagens que trocava.
Chegou o dia que tanto esperava. Iria conhecer a sua amada. Estava tudo certo com as suas passagens. A hospedagem seria na casa da amásia, pensou ele. Nada mais justo que dormirem juntos já na primeira noite.
- Amor, estou na fila de embarque. Tudo certo por aí? Por aqui tudo vai bem.
- Muito bom mesmo.
- Me espera no aeroporto? Chego às 20h.
- Sim. Espero.
A longa viagem passou rapidamente. As longas 33 horas passaram como se fosse um curto trajeto de 10 minutos da sua casa para a padaria a pé. Ele estava irreconhecível. Sentia-se dono de si, independente. Não avisou para ninguém que iria viajar. Queria tomar essa responsabilidade e se sentia apto para isso. No avião, escreveu uma pequena carta para a sua amada, esperando que ela visse já com ele em sua frente:
Nathalie,
Sua voz angelical passa por mim como os pássaros passam pela serra. Te conhecer foi o ponto de virada que tanto esperava. Nossas conversas são sempre gostosas e cheias de significados. Cada abraço que imagino de dar, me enche de orgulho, amor e carinho.
Escrevo estas palavras sem conter as lágrimas em meus olhos. A enchente que se aglomera é do tamanho do amor que sinto por você. Nada parece tão importante quanto amar você. Desejar você. Nunca me senti assim e espero que possa passar todo esse carinho para você.
Se um dia eu te fizer a metade do bem que me faz, terei feito tanto que não acreditarás. Amor, te amo muito e estou ansiando para te ver desde o dia que nós conhecemos. Um beijo.
Chegando no aeroporto, se deparou com uma mensagem que não lhe agradou, mas também não o alertou:
- Muito bom mesmo. Me encontre no hotel estanplaza, 398 às 20h.
- Tá bem, amor. Te encontro por lá.
A essa altura, já em Manila, ficara um pouco chateado. Queria encontrar com a sua amásia já no aeroporto, mas não foi possível. O endereço que recebeu direcionava para um hotel pouco conhecido da cidade. Até o momento, estava apenas ansiando para vê-la, mesmo com esse pequeno percalço.
O hotel cheirava a detergente podre. A entrada em pedaços e um piso todo esburacado. O carpete parecia nunca ter sido lavado desde a inauguração em 1928. Seguiu para a recepção, fez o check-in e lá mesmo foi direcionado para o quarto em que Nathalie estaria o aguardando. Quarto 919.
Mas que estranho esse hotel, né? Tudo arregaçado. Parece que ninguém dá a mínima para esse local faz tempo. Pensei que como preparadora de corpos para doação de órgãos ela tivesse uma renda melhor. Mas ok, quem eu sou eu para julgar a renda de alguém?
Seguiu para o quarto e tocou a campainha. O frio na barriga, a pupila dilatada e a sensação latente de não conseguir surpreender ela o tomara. Não por muito tempo… Nathalie abre a porta:
- Oi, Jorge! Que bom te ver. Como você tá? Como foi a viagem?
- Oi amor, que felicidade em te ver…
Nathalie era idêntica às fotos. Logo notara que a cortina amassada e o relógio estancando em 3h21 eram característicos do quarto 919. Pensou que ela morava ali. Ao menos, passava muito tempo ali.
- Senta aqui benzinho, deve estar morto da viagem. 30h não são 30 minutos.
- Vem aqui… Fecha os olhos… Quero te beijar… – Nathalie falou baixinho em seu ouvido
Sem ao menos dizer uma palavra, ouviu um barulho de uma tampa se abrindo e uma rolha saindo.
A próxima sensação que Jorge sentiu foi de uma leve picada. Idêntica àquelas que sentimos quando vamos tomar uma vacina e nossa mãe diz que não vai doer nada.
Tentou falar, mas a língua já estava muito pesada. Abriu os olhos e apenas enxergava a mesma cortina amassada e o relógio estancado… Aos poucos, tudo ia escurecendo e ele entraria em um profundo sono.
Antes de adormecer, ouviu uma voz masculina de fundo
- PRÓXIMO!
A luz do teto apagou e junto levou sua consciência.
Quando acordou, nada mais era parecido com o que tinha de lembranças antes de apagar… Estava em uma banheira branca lotada de pedras de gelo no quarto em que havia entrado. O 919. Não entendia o que estava acontecendo e entrou em pânico.
A sua frente, um bilhete com sábias palavras:
“Não se levante em nenhuma hipótese. Coloque a mão direita logo abaixo da sua lombar e sentirá um tubo saindo de si. Faça a mesma coisa com o lado esquerdo. Ligue para (2) 722-0650 e informe que teve seus rins amputados. Não saia da banheira antes do resgate chegar sob nenhuma hipótese.”
Ao lado, na bancada, uma mesinha com dois telefones. Um telefone pré-pago, sua única salvação aparente. E o seu próprio telefone ao lado. Ligou para Nathalie que o atendeu:
- Oi. Onde você tá???
- Muito bom mesmo – Com uma voz doce, angelical e fina.
A chamada caiu e o aplicativo de relacionamentos abriu sozinho. Na foto? Ele mesmo com uma cortina amassada e um relógio parado.
3h21.